Publicado em: seg, jul 16th, 2018

A linguagem da derrota

Lloris levou as mãos à cabeça quando deixou entrar o segundo golo da Croácia. De onde vem essa tendência que os futebolistas têm de reagir assim à derrota? Do medo de falhar. A psicologia explica.

Quando os jogadores falham uma grande oportunidade de golo, deixam a bola entrar na baliza ou perdem o jogo, saem de campo mais ou menos como uma criança de seis anos quando tapa a cara com as mãos na esperança de que, por ela não conseguir ver ninguém, então ninguém a consegue ver também. Foi assim que se sentiu Lloris quando a Croácia tentou reduzir os estragos e diminuiu a desvantagem frente à França fazendo o 4-2. De acordo com Jessica Tracy, professora de psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica, pôr as mãos na cabeça ou colocá-las na anca, como Lloris fez, serve para deixar uma mensagem gestual: “Essa reação vai dizer aos outros, ‘eu vi o que aconteceu e lamento, por isso não precisam de me expulsar do grupo nem precisam de me matar’”, explicou ela numa entrevista ao The New York Times.

Quando tudo corre mal, principalmente numa situação preponderante para a equipe, o jogador tende a interpretar as pequenas falhas que decorrem durante uma partida como “uma derrota em miniatura”, explica Desmond Morris, zoólogo especialista em sociobiologia humana: “Quando falha um gol importante, o sentimento é de fracasso, como se fosse uma derrota em miniatura. Ainda que na realidade se trate de um ‘sucesso falhado’, o que é diferente de uma derrota direta, o jogador reage com idênticas emoções de frustração e desespero. Como resultado, as ações por ele executadas nesta ocasião de tormento são parecidas com as observadas quando sofre a agonia da vitória adversária”.

Das doze reações que Desmond Morris enumerou no estudo “A Tribo do Futebol”, um livro que resultou de um estudo assinado pelo cientista em 1981, há duas que merecem especial atenção: aquela em que os jogadores de futebol levam as mãos à cabeça e aquela em que eles tapam a cara. As duas são muito parecidas porque têm o mesmo objetivo: “Tanto serve de bloqueio como de autoconsolo”, explica o zoólogo.

A posição das mãos bloqueia a visão e protege os olhos do horror que tem pela frente. Este tipo de bloqueio é amplamente utilizado em muitas formas de encontro desagradável e contribui para diminuir o impacto visual, tornando a situação um pouco mais fácil de suportar”, interpreta Desmond Morris.

Quanto à vertente de autoconsolo, cientista britânico acrescenta que o contato entre as mãos e a cabeça é uma “forma de autocontato largamente utilizada quando o indivíduo sente a necessidade de um abraço reconfortante, mas não tem ninguém por perto que lho possa oferecer”. É esta a sensação que os jogadores de futebol também procuram quando põem as mãos no cabelo.

Mas nem uma reação nem outra são tão radicais como tapar a cara com as mãos, considera Desmond Morris: tapar a cara é “o recurso máximo de bloqueio e autoconforto”.

O jogador fica de pé com as palmas das duas mãos contra a cara, os dedos voltados para cima. Não só bloqueia o registo visual e proporciona um reconfortante autocontato, como também esconde todas as expressões faciais”, como se fosse um escudo que impede as fraquezas momentâneas de transparecerem para quem os rodeia, concretiza o zoólogo.

Nenhuma destas possibilidades é, no entanto, a mais observada dentro de campo, sublinha Desmond Morris: a mais comum foi batizada pelo cientista britânico de “mãos na anca”, que é para ele um “gesto antissocial”. O significado dessa reação é inconsciente, mas as mãos na anca e os cotovelos projetados para o lado são “como barreiras que afastam quem pudesse aproximar-se demasiado”: “Os cotovelos estão a dizer ‘não te chegues’. Enquanto os membros da equipa que marcou se abraçam, os da outra recorrem às mãos na anca como uma espécie de ‘antiabraço’, mais uma vez transmitindo sinais físicos que são o oposto daqueles dos seus adversários bem sucedidos”.

Desmond Morris diz que este gesto é tão “disseminado e automático” que “praticamente todos os gols produzem um súbito acesso de mãos na anca na equipa derrotada”. Segundo as estatísticas do britânico, pelo menos metade dos jogadores adotam este gesto enquanto os vencedores celebram a vitória.

E fazer isso é um comportamento transversal às sociedades. Há dez anos, Jessica Tracy e David Matsumoto fizeram um estudo sobre as expressões de vitória e de derrota em atletas olímpicos cegos e descobriram que elas eram iguais às dos atletas que conseguiam ver. Foi assim que concluíram que levar as mãos à cabeça ou às ancas não são gestos que se aprende por imitação. São, isso sim, gestos “inatos e universais”: “Se uma pessoa põe as mãos na cabeça é porque sente vergonha. Há a constrição do corpo, no sentido em que o jogador move os braços à volta da cabeça quase numa tentativa de parecer mais pequeno. Esses são elementos de destilação de vergonha muito clássicos”, explica Jessica Tracy no estudo “A expressão espontânea de orgulho e vergonha: provas de exibições não-verbais biologicamente inatas”.

No relatório do estudo, os cientistas explicam que estudaram os comportamentos de atletas vindos de mais de 30 países e que “os resultados mostraram que indivíduos com visão, cegos e congenitamente cegos exibiram os comportamentos associados à expressão do orgulho prototípico em resposta ao sucesso” e que “pessoas com visão, cegas e congenitamente cegas da maioria das culturas também exibiram comportamentos associados à vergonha em resposta ao fracasso”. Mas nem todas as pessoas reagem da mesma maneira, descobriu a psicóloga norte-americana: “A cultura moderou a resposta da vergonha entre os atletas com visão. Foi menos pronunciada entre os indivíduos de culturas altamente individualistas, que valorizam a auto-expressão, principalmente na América do Norte e na Eurásia Ocidental”. Trocado por miúdos: todos os atletas põem em prática os gestos enumerados por Desmond Morris, mas “a exibição da vergonha pode ser intencionalmente inibida por alguns indivíduos com visão conformidade com as normas culturais”, conclui o estudo.

Certo é que não importa a um jogador qual é a quota-parte daquele falhanço que está nas suas mãos: falhar é falhar e não importa mais nada. Isto é explicado por David Goldblatt, historiador de futebol do Reino Unido, ao The New York Times: “É exatamente a mesma realidade estatística. Tens uma oportunidade. Se a falhas ou se é o guarda-redes que defende pouco importa”, diz ele. O que vem a seguir — tapar a cara ou a cabeça com as mãos — é apenas a expressão de um comportamento biologicamente muito antigo.

Quando as pessoas se assustam inesperadamente, as mãos movem-se quase até à cabeça, quase num movimento de proteção. O tipo mais antigo de intenção comportamental nessa classe de gestos é proteger sua cabeça dos golpes”, acrescenta Dacher Keltner, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, ao The New York Times.

Apesar de os jogadores tenderem a sentir cada pequena falha como uma grande, nem sempre admitem que aquele momento está completamente assinado por eles. É por isso que olham para cima, diz o psicológico californiano: “Olhar para cima é como pedir para que aquela falha seja interpretada como uma consequência do destino do que do seu próprio erro. Quando as pessoas se sentem boquiabertas, elas olham para cima como se reconhecessem que algo além da agência humana possa ter entrado na equação”.

A França sagrou-se campeã do mundo de futebol, enquanto a Croácia vai teve de se consolar com um segundo lugar. Os primeiros celebraram com abraços dois anos depois de terem saído derrotados no Euro 2016 frente a Portugal enquanto os croatas vão de cabeça baixa para dentro do balneário. A alegria de uns e a tristeza de outros é perfeitamente compreensível: os nervos estão à flor da pele. E saem do controlo de qualquer um, garantem os especialistas.

Fonte:
https://observador.pt