Publicado em: ter, jun 19th, 2018

A MÁGOA DE C. G. JUNG EM SEU FINAL DE VIDA

Barbara Hannah foi amiga de Carl Gustav Jung e o assessorou até o final da vida. Eles se conheceram em 14 de janeiro de 1929, ele tinha então 54 anos, quando ela o visitou para a primeira entrevista de início de análise. Ela menciona sua impressão deste primeiro contato: “a psicologia de Jung era personificada por ele próprio, sendo a sua pessoa ainda mais eloquente do que todos os seus livros juntos”¹. Graças a esta convivência de muitos anos, Barbara escreveu uma das muitas biografias que existem de Jung. Desta, a parte que mais me chamou atenção, e que trago aqui para reflexão, é referente aos últimos anos de vida de Jung quando da comemoração de seu 80º aniversário no Dolder Grand Hotel de Zurique.

Neste dia, Jung teve três festas consecutivas, sendo que as da manhã e noite foram promovidas pelo Instituto C.G. Jung e a da tarde pelo Clube Psicológico. A da manhã foi aberta a todo aquele que assistiu, pelo menos, a uma palestra de Jung e foi um evento descontraído na qual Jung estava feliz. Já o evento da noite foi apenas para os principais representantes dos muitos grupos Junguianos espalhados pelo mundo. Nesta, Jung saiu assim que pode e não parecia nem um pouco feliz.

Alguns dias depois, Barbara teve a oportunidade de perguntar a Jung o porquê dos dois comportamentos diferentes nas festas. Transcrevo a resposta de Jung, segundo ela: “Estou certo da presença de muitos espíritos bons naquela manhã e acho que a maioria deles pertencia a pessoas que a gente nem conhecia. Mas, você sabe, essas pessoas é que levarão adiante a minha psicologia – pessoas que leem os meus livros e em silêncio permitem que eu modifique as suas vidas. A minha mensagem não será levada adiante pelos cabeças, pois em sua maioria eles abandonaram a psicologia Junguiana e assumiram, no lugar dela, a psicologia do prestígio.”².

Sobre essa citação esclareço dois pontos: o primeiro deles seria que os chamados “cabeças”, para Jung, são todos aqueles que estão à frente da divulgação da Psicologia Analítica através de seus institutos pelo mundo; o segundo ponto seria que Jung não se referia à sua psicologia como “Junguiana” e sim como psicologia Analítica. Este termo: “Junguiano” é empregado hoje em dia para que haja uma maior facilidade na associação, pelo leigo, de qual abordagem psicológica se trata. Jung até mesmo dizia que o único Junguiano que ele conhecia era ele mesmo, pois se chamava Jung. Ele não queria seguidores, nem que aceitassem cegamente o que defendia. Queria sim, que as pessoas questionassem as suas teorias para que, deste modo, atingissem um pleno entendimento delas.

Fica assim a mensagem de Jung para que identifiquemos aqueles que optaram pela “psicologia do prestígio”, ou seja, estes que deixaram a humildade de lado e usam o título como pedestal. Escondem o conhecimento. Clinicam apenas para as elites. Proclamam-se os únicos autorizados a darem continuidade ao legado de determinada abordagem psicológica.

Jung dizia: “Por isso, quer eu queira quer não, se eu estiver disposto a fazer o tratamento psíquico de um indivíduo, tenho que renunciar à minha superioridade no saber, a toda e qualquer autoridade e vontade de influenciar. Tenho que optar necessariamente por um método dialético, que consiste em confrontar as averiguações mútuas. Mas isto só se torna possível se eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem limitá-lo pelos meus pressupostos.”³. Em outras palavras: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

Notas bibliográficas:

1-      HANNAH, 2003, p.201.
2-      HANNAH, 2003, p.335.
3-      JUNG, 2008, p.3, §2.

Referências Bibliográficas:
HANNAH, B. Jung: Vida e Obra – uma memória biográfica. Porto Alegre: Artmed Editora, 2003.
JUNG, C. G.  A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2008.

Autor:

Lincoln Torres Homem Junior _ CRP: 05/40670
Coordenador Universidade Santa Úrsula _ RJ
lincoln.thj@gmail.com