Publicado em: qui, mar 22nd, 2018

A sombra de todos nós

Tempo de férias que agora se extinguiram. Tempo para ler tudo, ou um pouco de tudo, o que não é possível durante o ano, pois sempre é exigido estudos independente da fase na qual estamos inseridos na psicologia –  da graduação à já estabelecida como profissional.

Livros de suspense, mistérios e assassinatos fazem parte da lista sempre. Trazem mentes diferentes ao mundo comum, corriqueiro. Abrem a cortina para uma humanidade que não é encarada como real: aquela que está dentro da sombra (a partir do conceito junguiano), mas que de algum modo também nos pertence.

Obviamente, a violência e a crueldade estão presentes e espalhadas a quatro cantos. Contudo, na maior parte das vezes, as banalizamos em pouco tempo…Entretanto, a questão aqui não se trata de reconhecê-las no dia a dia dos jornais, mas dentro de nós. E assim ter a noção particular que o que move nosso íntimo é a mola mestra para saber por onde queremos caminhar.

O mundo nunca será cor-de-rosa. Nossa alma nunca será transparente. Isso, porém, não nos delimita a uma vivência medíocre. Há que se estar atento aos trâmites do ego e do inconsciente para produzir uma nova equação que tenha um resultado positivo.

Ter um olhar sobre as questões que desnudam as variadas expressões políticas e econômicas nacionais e internacionais e a participação social nas emergências da própria sociedade é fundamental na medida em que são propiciadoras de transformações necessárias ao longo do tempo.

Então quem é a sombra que pertence a todos, mas que possui a alguns profundamente sem permitir que suas qualidades – da própria sombra, pois elas existem! – emerjam para aplacar tudo que pode se tornar destrutivo?

Jung desenvolve extremamente bem este tema tão atual: a força da sombra na psique humana e seus desdobramentos na constelação do social como um embrião de sociedades futuras.

Resumindo suas palavras em O.C. 14 § 706: “O confronto com a sombra é, para a consciência, uma necessidade terapêutica (…). Ao final, isso deve levar a algum tipo de união, embora a união consista em um conflito declarado que pode assim permanecer por um longo tempo. É uma luta que não pode ser definida por meios racionais. Quando deliberadamente reprimida, continua no inconsciente e, meramente expressa-se de modo indireto, com muito mais perigo, o que anula toda a vantagem. A luta continua até os oponentes perderem o fôlego. O resultado da disputa jamais pode ser visto de antemão. A única certeza é que ambas as parte serão transformadas”.

É sempre fundamental esclarecer o lado colaborador da sombra: ela não se constitui como o eixo sombrio da personalidade apenas, pois também dela fazem parte os instintos, habilidades, qualidades morais positivas que talvez tenham sido enterrados ou que não vieram à consciência. Todavia, a sombra reconhecida pode trazer alguma liberdade ligada a propósitos vivenciais menos regulados e mais criativos.

Creio que com alguma reflexão, a partir desse conceito, é possível entender as distorções que assistimos ao longo da história da humanidade com exemplos sem fim.

Tomemos conta – cada um de nós – de nossas sombras: reconhecê-las, nomeá-las e, assim, trazer à tona o que elas têm de melhor. A análise terapêutica é um processo onde é necessário esse confronto. Todos ganham.