Publicado em: seg, dez 3rd, 2018

Afetos e desafetos

O Legado de uma eleição.

Terminamos recentemente uma das eleições que já é considerada, dentre todas as eleições diretas ocorridas desde 1989, a que mais gerou mobilização e envolvimento da população na escolha de seu representante à presidência da república. Esquivando-me de uma análise político-social, que não cabe aqui, ressalto o aspecto psicológico das polarizações na escolha do voto e o resultado disso nas relações afetivas.

Outro destaque que surge desta eleição é o quão relativo ficou o poder econômico dos candidatos e de suas coligações partidárias, com suas respectivas verbas públicas milionárias de campanha e tempo de TV, diante da constatação do verdadeiro poder oriundo das redes sociais e grupos de WhatsApp em suas manifestações multidirecionais de opinião que atravessaram todas as fronteiras imagináveis e inimagináveis da comunicação.

Diante deste quadro na qual cada um defendia o que julgava que estava alinhado com seus valores e crenças, os ânimos ficaram exaltados pelas muitas concordâncias e discordâncias em um ambiente de comunicação caracterizado pela livre expressão democrática.

Passado este “furacão” que foram as eleições, retiram-se dos “escombros” relatos de que, por conta dos conflitos, um infindável número de amizades antigas foram desfeitas, aumentou-se o distanciamento entre parentes com opiniões opostas, ambientes de trabalho e estudo passaram a constituir-se de grupos rivais, aconteceram rompimentos de namoros e, até mesmo, de casamentos por causa das discussões acaloradas. Enfim, tudo isso como resultado dos despojos de uma guerra eleitoral. Em contrapartida pessoas, parentes e colegas que antes não tinham maiores vínculos, estreitaram estes laços e passaram a se admirar mutuamente por serem defensores de uma “causa maior” ou como representantes da última linha de defesa das ideologias nas quais acreditam.

O que se deve adotar como cautela em todos estes episódios é, na verdade, outro tipo de eleição: a eleição dos nossos inimigos e esta divisão, para nós, entre quem é “do bem” e quem é “do mal” por motivo de suas escolhas. Estas dicotomias não favorecem ninguém, pois nada floresce no caos dos extremos. Um sujeito é muito mais do que apenas uma opinião. Ele é composto de desejos, sonhos, esperanças, mas também de angústias, frustrações e medos. Como psicólogos devemos estar abertos ao acolhimento. Devemos trabalhar nossa empatia e ajudar o sujeito que busca o nosso auxílio a entender as suas escolhas sem que, em nenhum momento, tentemos impor a nossa opinião à dele. Mas sim, devemos trabalhar para que ele consiga tomar suas próprias decisões baseadas na autenticidade da relação consigo mesmo, não se deixando manipular ou seduzir por tentações que o levem à perda de sua integridade psíquica.

Carl Gustav Jung em um texto intitulado “O problema do mal no nosso tempo” menciona algo muito atual para o nosso cotidiano pós-eleição. Ele cita: “Qualquer forma de vício é nociva, quer se trate de narcóticos, de álcool, de morfina ou de idealismo. Precisamos evitar pensar o bem e o mal como opostos absolutos. O critério da ação ética não pode mais consistir numa simples visão de que o bem tem a força de um imperativo categórico, enquanto o chamado mal pode ser resolutamente evitado (…) Precisamos perceber que bem e mal representam um julgamento. Em vista da falsidade de todos os julgamentos humanos, não podemos acreditar que sempre julgaremos de modo correto. Podemos, com muita facilidade, ser vitimas de um julgamento equivocado.” ¹. De acordo com esta recomendação de Jung, não devemos retirar do nosso convívio aquelas pessoas as quais um dia amamos ou respeitamos por terem discordado da nossa “verdade absoluta” e, assim, impusemos a elas um exílio por terem contrariado uma ideologia politica que julgamos ser a melhor.

Devemos descer dos nossos “pedestais do orgulho”, depormos nossas armas e abraçarmos aqueles que categorizamos como inimigos políticos, pois, com certeza, os políticos profissionais, a esta altura, já fizeram isso.

Notas bibliográficas:
JUNG, 2005, p.193.
Referências Bibliográficas:
ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (orgs). Ao Encontro da Sombra. São Paulo: Cultrix, 2005.

Artigo publicado na edição 71 _Jornal Momento PSI. 
Psicólogo Lincoln Torres Homem Junior
CRP: 05/40670