Publicado em: ter, dez 5th, 2017

Boderline

Os espaços amplos e vazios da capital criam o cenário ideal para a história de Borderline, novo longa-metragem da cineasta brasiliense Cibele Amaral. O ar bucólico e frio da cidade nesta época abriga a solidão das personagens que se redescobrem e buscam o melhor caminho para lidar com as próprias vivências, sensações e personalidades. O transtorno de personalidade limítrofe (borderline) aparece na forma de um importante relato e abre espaço para debater as causas, consequências e transformações da síndrome. As gravações estão a pleno vapor e a ideia é que o filme seja lançado em 2018.

Em defesa da maior participação das mulheres no mercado audiovisual, Cibele, que trabalha com cinema desde sua primeira participação como atriz, em 1993, reuniu uma equipe forte e majoritariamente feminina. Elas ocupam 70% dos cargos e comandam na frente e por trás das câmeras.

O elenco conta com nomes de peso da dramaturgia, como os das atrizes Bárbara Paz, Cristiane Oliveira, Elisa Lucinda, Maria Paula e a brasiliense Carolina Monte Rosa, uma das protagonistas. A diretora do longa é também formada em psicologia e a ideia do filme surgiu a partir do desejo de trabalhar de maneira mais eficaz  o transtorno.

“Temos muito o que falar, não só no transtorno borderline, mas toda a questão da saúde mental e a pouca importância que se dá para ela. A saúde mental está ligada à qualidade de vida e a gente tem uma ideia muito precária sobre isso. Vai ser muito legal criar debates com as pessoas a partir do que elas vivenciaram com o filme”, destaca Cibele.

A diretora destaca que o filme não é, necessariamente, sobre o transtorno. Na história o importante são as pessoas, relatos de mulheres que foram diagnosticadas e experimentaram diferentes quadros, entre os mais explosivos, os silenciosos. “As pessoas acabam se enxergando muito nos personagens e vai ser muito importante debater essas questões que o filme levanta.”

Processo criativo

A produtora executiva Ana Maria Muhlenberg complementa o trabalho forte da equipe de mulheres e destaca a importância de expandir e incentivar a produção cinematográfica brasiliense, investindo na produção com artistas locais de talento e nomes conhecidos nacionalmente. A estética do filme se inspira em películas como Cisne negro e Garota interrompida, com a direção do trabalho de fotografia de Maurício Franco. Nas telas, o Eixão, o Eixo Monumental e a Universidade de Brasília criam um espaço de solidão que se expande entre as personagens. A ideia é que qualquer pessoa possa se reconhecer, se identificar.

Bárbara Paz e Carol Monte Rosa formam a dupla de protagonistas que mostram a construção e a recuperação do transtorno, em uma relação de profunda troca. Para Bárbara, que leva o mesmo nome da personagem que trabalha nas telas, a história ganha grande importância ao promover a discussão e o debate. A personagem fez com as atrizes mergulhassem a fundo nos transtornos psíquicos e trabalhassem em cena as questões que os envolvem, como insegurança, depressão, angústias e traumas.

“É um personagem difícil, o borderline tem vários níveis de ramificação. Ao mesmo tempo, é  rico para a construção, com diferentes nuances. É um prato cheio, como atriz, para trabalhar”, afirma Bárbara. Ela destaca que as duas Bárbaras (a do filme a da vida real) são muito diferentes e se complementam apenas no set. Para Bárbara, de alguma forma, são todas mulheres, com os seus vazios e angústias que, quanto levados ao extremo, podem ser prejudiciais.

A atriz destaca que, no cinema, o trabalho criativo é elevado à quinta potência. Em Borderline, a proposta da diretora é que todos os atores tirem as máscaras construídas e criem com o mínimo na tela. “Eu já li vários livros sobre transtornos limítrofes para trabalhos anteriores, mas neste caso, a Cibele não quis que eu me apegasse muito ao estudo teórico na etapa da filmagem.

A ideia é que eu estivesse livre dessa filosofia para construir a partir da ação, precisando das minhas experiências”, conta Bárbara. Ela se inspirou em uma das mulheres que conheceu durante as filmagens na clínica e teve a oportunidade de observar suas características vivas para construir a personagem.

Enquanto isso, Carolina Monte Rosa, que interpreta uma estudante de psicologia, visitou um espaço de convivência para pacientes psiquiátricos, também frequentado por estudantes. O caráter psicológico foi construído a partir da orientação da diretora aliada a outras referências cinematográficas, criando a fala e o comportamento da mulher que levaria para a cena.

Angústias

Para Carolina, o trabalho com personagens que beiram o delírio é uma experiência intensa e, às vezes, perturbadora. “São papéis que o ator precisa entrar por inteiro, senão corre o risco de ficar falso ou superficial. Eu me permito ir a lugares bastante sombrios da minha própria psique e vivenciar as angústias da personagem”, destaca a atriz.

O trabalho trouxe um mergulho necessário e esclarecedor, levantando questões importantes de serem discutidas, ressalta. “E já que estamos falando em mulheres, uma delas é o estereótipo de histeria feminina”, lembra Carolina. O filme é importante para despertar o melhor entendimento no tratamento com pessoas com sofrimento psíquico, além de possibilitar que alguns tabus sejam desmistificados.

No caso de sua personagem, Jéssica, homens e mulheres podem se identificar com uma espécie de rigidez nas relações afetivas, pouco prazer na vida, isolamento e máscaras sociais desenvolvidas numa tentativa de se proteger. Todas essas questões são trabalhadas por mulheres envoltas por uma grande potência cênica, que se reúnem sob a direção de Cibele para construir uma história sem tabus e com foco na experiência do indivíduo.

70%
Porcentagem de cargos ocupados por mulheres no filme Borderline

O filme é um relato selvagem e real de uma borderline, são duas histórias de mulheres com transtornos psicológicos”
Bárbara Paz, atriz


O que é?

Também conhecido como  transtorno de personalidade limítrofe (TPL), borderline é um distúrbio que afeta principalmente o equilíbrio emocional. Ele atinge ao menos 1,6% da população, sendo 75% mulheres. É um tipo de transtorno de personalidade que se caracteriza pela instabilidade emocional, que muda ao longo do dia muitas vezes sem nenhum episódio desencadeante.

Fonte:
www.correiobraziliense.com.br