Publicado em: ter, jun 6th, 2017

Brasileiros criam método para diagnosticar esquizofrenia na primeira consulta

Cientistas do Instituto do Cérebro, em Natal, usam algoritmo para analisar fala de jovens pacientes.

Um novo método para o diagnóstico de esquizofrenia, desenvolvido por cientistas brasileiros, poderá ser utilizado como exame complementar, permitindo que os médicos identifiquem a doença já na primeira consulta com 80% de precisão.

Empregando algoritmos para analisar a estrutura da fala dos jovens que apresentam sintomas iniciais de esquizofrenia, a técnica poderá antecipar o diagnóstico em pelo menos 6 meses, evitando o risco – em geral bastante comum – de submeter o paciente à medicação errada, segundo os pesquisadores.
O estudo que descreve o novo método foi publicado na revista científica Schizophrenia, do grupo Nature, por uma equipe liderada pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro, ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

De acordo com Ribeiro, um dos maiores problemas atuais da indústria farmacêutica em psiquiatria é evitar tratar o paciente para a doença errada. “Essas doenças não têm base biológica clara e, portanto, não há exames inequívocos para o diagnóstico”.

Em pesquisas anteriores, utilizando modelos matemáticos para analisar a estrutura do discurso dos esquizofrênicos, os cientistas perceberam eles têm uma fala notavelmente empobrecida, quase aleatória. Os pacientes estudados, porém, já haviam sido diagnosticados e sofriam da doença há muito tempo, apresentando uma deterioração cognitiva bastante avançada e difícil de reverter.

No novo artigo, os cientistas, com uma análise muito mais sofisticada da fala dos pacientes, os cientistas conseguiram fazer medidas precisas do grau de aletoriedade da estrutura verbal.

“O objetivo era resolver um problema clínico: fazer o diagnóstico da esquizofrenia em adolescentes psicóticos ainda em seu primeiro contato clínico, quando o diagnóstico entre esquizofrenia, bipolaridade e outras doenças é muito mais difícil, justamente porque eles ainda não tiveram a deterioração cognitiva decorrente de uma longa história de crises psicóticas”, disse.

Ribeiro explicou que atualmente, por conta da dificuldade do diagnóstico, é preciso acompanhar o paciente por 6 meses para definir o diagnóstico, para evitar uma medicação equivocada, que poderia ser desastrosa. Mas, nesse período, a degradação cognitiva pode se agravar.

“Mostramos que é possível calcular um número único – que chamamos de índice de fragmentação – capaz de prever com grande acurácia o diagnóstico da esquizofrenia 6 meses antes, na primeira entrevista psiquiátrica do paciente. Isso significa que o psiquiatra pode usar esse índice para dar um diagnóstico inicial mais certeiro já no primeiro encontro com o paciente”, afirmou.

Aplicação clínica
De acordo com a médica psiquiatra Natália Mota, primeira autora do artigo da Schizophreny, a ideia inicial do estudo com foco na fala do esquizofrênico partiu de conceitos da psicopatologia clássica. Mesmo que uma pessoa tenha alucinações e delírios, é preciso ter algum critério para distinguir a esquizofrenia, que leva ao longo dos anos a uma deficiência cognitiva, de outras doenças como o transtorno bipolar. E a maneira de se expressar tem sido um critério para isso desde o século 19.

“Há muito tempo os sintomas da desordem do pensamento expressa na fala foram descritos como típicos da esquizofrenia. Não apenas o conteúdo do que a pessoa fala, mas a forma. O psiquiatra observa esses sintomas a partir do que chama de ‘descarrilamento do pensamento e frouxidão das ideias'”, disse Natália.

Na primeira fase do estudo, os cientistas gravaram relatos simples feitos por pacientes crônicos de esquizofrenia – em surto psicótico e medicados – e por pessoas saudáveis. Os relatos foram então analisados com o uso da teoria dos grafos, um ramo da matemática que estuda as relações entre os elementos – neste caso, as palavras – de um determinado conjunto.

“Mostramos ali que o nosso método era capaz de medir as características da conectividade das ideias na fala dos pacientes, diferenciando com bastante precisão os sintomas negativos dos esquizofrênicos. Assim, imaginamos que essa poderia ser uma ferramenta importante para uma primeira avaliação clínica”, explicou.

Segundo ela, no caso dos pacientes crônicos, o psiquiatra consegue perceber os sintomas com relativa facilidade, a partir do histórico das crises e das ideias que já apresentam clara falta de conectividade. Por outro lado, em crianças e adolescentes que começam a ter sintomas de isolamento e a escutar vozes de comando, por exemplo, o clínico tem mais dificuldade para diferenciar o problema de bipolaridade ou transtornos de comportamento.

“Percebemos que seria importante aplicar esse método de análise da fala logo início, a fim de poder rastrear quais pacientes poderiam desenvolver no futuro os sintomas negativos mais difíceis de tratar, como a degradação cognitiva.”

Como foi o teste da técnica
A pesquisadora, que está concluindo o doutorado em neurociências no Instituto do Cérebro, passou então a acompanhar as crianças que chegavam para a primeira consulta em um Centro de Atenção Psicossocial Infantil em Natal.

Primeiro, as crianças eram convidadas a contar um sonho da noite anterior e a cientista gravava apenas 30 segundos do relato, a fim de obter um número restrito de palavras. Depois, elas também observavam imagens de conteúdo positivo, negativo, ou neutro e em seguida eram estimuladas a contar o que haviam visto, somando mais 30 segundos de gravação.

Depois da transcrição da gravação, os cientistas carregavam o arquivo de texto em um programa desenvolvido por eles nos estudos anteriores (e que é de uso aberto para os médicos que quiserem utilizar), cujo algoritmo quantifica as características da conectividade das palavras.

Seis meses depois do experimento, já com o diagnóstico das crianças definido, foi possível observar diferenças claras no discurso daquelas que apresentavam esquizofrenia – e testar se o método funcionava. As gravações também foram feitas com crianças sem sintomas, como controle.

“O que observamos – especialmente no relato do sonho – é que, já na primeira entrevista, as crianças que seis meses depois foram diagnosticadas com esquizofrenia contavam a história de uma forma bem menos conectada e menos complexa”, disse Natália.

Salada de palavras
O algoritmo também mostrou que, em relação à conexão das ideias, quando os cientistas embaralhavam todas as palavras, fazendo a estrutura do discurso desaparecer, o resultado totalmente aleatório que se formava tinha pouca diferença em relação à fala da criança esquizofrênica.

“Dos pacientes que receberam diagnóstico de esquizofrenia depois de seis meses, 64% tinham um discurso com conectividade indistinguível do aleatório. Entre os que receberam diagnóstico de transtorno bipolar, 30% tinham esse tipo de discurso”, disse Natália. Entre as crianças que não tinham sintomas, apenas 5% apresentavam fala aleatória.

Depois, os pesquisadores combinaram os três diferentes componentes matemáticos utilizados para obter as medidas de aleatoriedade da fala, criando um número único – o índice de fragmentação da fala. O resultado foi ainda mais consistente.

“Ao combinar todos os atributos, descobrimos que o método conseguia prever o diagnóstico de esquizofrenia com mais de 80% de precisão”, afirmou Natália.

A vantagem do método é que, além de ser preciso, barato e não-invasivo, é também muito rápido. Na primeira consulta, o clínico só precisa recolher dois relatos de 30 segundos e transcrever os discursos.

“Daí em diante, tudo é automatizado e o médico chega ao índice de fragmentação em questão de segundos. Quanto maior o índice, maior a chance do paciente ter sintomas mais graves de esquizofrenia”, explicou a pesquisadora.

Engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), José Alberto Orsi começou a enfrentar os primeiros sintomas de depressão crônica em setembro de 1994, aos 26 anos de idade. Ele ainda não sabia, mas aquele era o início de uma longa história de sofrimento com as crises psicóticas causadas pela esquizofrenia.

“O primeiro surto de esquizofrenia é muito difícil de ser caracterizado. Mesmo tendo antecedentes na família, o diagnóstico ainda não era possível. Cheguei a ter atendimento psiquiátrico, mas aquela primeira crise, de fato , foi mais de depressão que esquizofrenia”, disse Orsi .

A família sempre teve preocupação com sua saúde mental. O pai havia sido diagnosticado com esquizofrenia em uma época de medicação rudimentar e tratamento com choques elétricos. No entanto, nem todos os cuidados da mãe – Orsi fazia psicoterapia desde os 13 anos – o livraram dos problemas mentais.

“Eu era tímido e retraído, mas tinha uma vida social normal. O psiquiatra tranquilizou minha mãe, dizendo que não havia nenhum problema mais grave. Mas quando eu melhorava da depressão, parava a psicoterapia e os sintomas voltavam”, contou.

Antes de seus problemas começarem, Orsi era engenheiro fiscal de obras num grande empreendimento em São Paulo, mas foi transferido na época para a atuar na ampliação de um shopping centre em Santo André.

“Meu desejo era trabalhar com urbanismo, em uma grande empresa pública. Essa frustração ficou latente e, em 1994, percebi que aquele emprego provisório seria o emprego da minha vida. Quando tive os sintomas de depressão, atribuí isso à frustração e não à doença”, disse Orsi.

Apesar do diagnóstico de depressão, o psiquiatra alertou que Orsi precisaria tomar uma medicação pelo resto da vida. “Provavelmente na época ele já suspeitava de esquizofrenia, mas não me revelou.”

Viagens e crises
As crises depressivas duraram até maio de 1995, quando os sintomas arrefeceram, mesmo com a suspensão da medicação, e Orsi decidiu se licenciar do trabalho e ir para o Mississipi, nos Estados Unidos, para estudar inglês.

A mudança de ares parecia ter sido salutar. O engenheiro não tinha mais nenhum resquício de depressão, começou a fazer um MBA e, entre 1995 e 1998, estudou e viajou muito em território americano e Europeu. Passou três anos sem medicação e sem sintomas. “Fiquei cada vez mais convencido de que a depressão realmente era produto da frustração profissional”

Em maio de 1998, a aparente estabilidade desmoronou de uma só vez. Na reta final de seu MBA, submetido ao estresse e depois de ter problemas com uma professora, Orsi teve sua segunda crise. Mas dessa vez tratava-se mesmo de um surto esquizofrênico, com alucinações.

“Comecei a perceber uma série de ‘fenômenos’ que eu julgava ser de natureza esotérica e sobrenatural. Comecei a sentir que recebia mensagens telepáticas da televisão e da internet. Achava que meu telefone estava grampeado e que podiam ler minha mente. Eu decifrava importantes códigos secretos e universais de jornais e revistas. A CIA estava por trás da articulação dessa trama”, contou.

As atitudes bizarras começaram a chamar a atenção da vizinhança. Um dia, convencido de que era o escolhido para repovoar a Terra e ser o Messias, Orsi  acreditou que era chegada hora da revelação. Despiu-se e mergulhou na piscina de seu condomínio. Foi retirado por um policial e levado algemado até uma ambulância. Ele fantasiava que tudo era uma pegadinha da CNN, emissora da qual seria herdeiro.

“Fui internado em uma clínica no Mississipi e, duas semanas depois, minha irmã, que morava em Miami, me levou para lá. Ali um médico finalmente fez o primeiro diagnóstico de esquizofrenia. Comecei o uso do antipsicótico que tomo até hoje. Ele me disse que teria que tomar o medicamento para sempre. Aquilo foi devastador para mim”, disse o engenheiro.

Idas e vindas
Arrasado pelo o diagnóstico, Orsi voltou ao Brasil para se tratar. O psiquiatra que o havia atendido em 1995 não concordou  com o diagnóstico de esquizofrenia feito pelo médico americano e, no fim de 1998, suspendeu o antipsicótico e receitou apenas lítio para as alterações do humor.

Em janeiro de 1999, em melhores condições, ele voltou ao Mississipi para terminar seu curso. Ele deixou de tomar o lítio por conta própria e concluiu seu MBA. Após realizar alguns trabalhos na própria universidade, para se manter, conseguiu um emprego na Microsoft, em setembro, do outro lado do país, em Redmond, estado de Washington. Dois meses depois, teve seu terceiro surto.

“Resolvi voltar para Miami de carro. Quando cruzava o estado de Montana, tive um surto mais forte e fui recolhido pela polícia local. Novamente, fiquei internado por duas semanas até que minha irmã me levou para Miami. Vi que não tinha condições de me radicar nos Estados Unidos, como queria. Voltei ao Brasil em janeiro de 2000, triste e insatisfeito”, afirmou.

Em São Paulo, a crise continuou e Orsi foi internado na Santa Casa. Houve troca de prontuários entre os médicos dos Estados Unidos e do Brasil e ele acabou diagnosticado como bipolar e ficou uma ano tomando apenas antidepressivos.

“Em maio de 2001, tive meu quarto surto. Finalmente comecei a tomar de forma contínua a medicação básica que havia tomado após o primeiro diagnóstico de esquizofrenia nos Estados Unidos – e que tomo até hoje”, contou Orsi.

Mudanças
O engenheiro afirma que um dos fatores que agravaram os problemas foi tratar-se com vários psiquiatras. “Havia troca de prontuários, mas eles pegavam fases diferentes dos surtos.  Agora já tenho um diagnóstico bem consolidado. A grande dificuldade é o diagnóstico inicial e a aceitação do paciente e da família. Fui medicado por todo o período de 1994 a 2000, mas negava a doença”, comentou.

Além do antipsicótico, Orsi toma hoje um estabilizador do humor e outros fármacos clínicos para controlar efeitos colaterais da medicação, como aumento do peso e da pressão sanguínea. Desde 2001, ele faz consultas semestrais com o clínico geral e visita o psiquiatra a cada dois meses. “Estou estável, não tive mais surtos desde então.”

Em 2003, por meio de uma palestra na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, Orsi conheceu a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre).

“Passei a frequentar as reuniões do grupo de Estratégia, Comunicação e Informação da instituição. Conheci novas pessoas e portadores da doença. Minha visão e perspectiva de mundo mudaram bastante. Comecei a trabalhar na ONG”.

Em 2007, Orsi se tornou diretor adjunto da Abre e, em 2017, passou a ser o tesoureiro da instituição.

“As perspectivas são muito boas, pois a ONG tem um ótimo potencial de crescimento e me dá muito apoio. Temos uma parceria com a Unifesp e estamos caminhando para seguir os passos de um modelo anglo-australiano de instituição, que oferece uma retaguarda de oficinas e oportunidades de superação e engajamento social e profissional para pessoas que têm esquizofrenia e transtornos mentais de modo geral”.

Fonte:
www.ciencia.estadao.com.br