Publicado em: ter, jun 5th, 2018

Ecopsicologia.

O afastamento entre ser humano e natureza cobra um alto preço em desequilíbrio psíquico e dos ecossistemas. Reconectar as pessoas ao meio natural é a proposta de uma linha mais recente e verde da psicologia: a ecopsicologia.

A influência positiva da natureza no bem-estar humano tem sido cada vez mais comprovada por pesquisas científicas. E não é preciso adotar uma vida bucólica no campo para sentir esses benefícios. Caminhar em meio a uma área arborizada reduz a atividade cerebral conhecida como “ruminação”. Esses pensamentos repetitivos focados em emoções negativas contribuem para o aparecimento da depressão, o mal do século. Uma caminhada no meio urbano, entretanto, não produz o mesmo efeito, segundo estudo do Stanford Woods Institute for the Environment, da Universidade Stanford (EUA).

A vida na cidade também cobra seu preço no desempenho da memória, da atenção e no equilíbrio psíquico. Moradores de cidades têm mais chance de sofrer distúrbios de ansiedade (20%), transtornos de humor (40%) e esquizofrenia (o dobro) comparados àqueles que vivem em áreas rurais. Esses estudos dos últimos anos só vêm confirmar o diagnóstico fechado três décadas atrás, quando o historiador norte-americano Theodore Roszak lançou o livro The Voice of the Earth (“A Voz da Terra”, em tradução livre), considerado a criação de uma nova vertente da psicologia que propõe reconectar o ser humano ao meio ambiente: a ecopsicologia.

Enquanto as outras linhas terapêuticas estão bastante focadas no íntimo do indivíduo e nas suas relações com outras pes­soas, a ecopsicologia lembra ao ser humano que ele é parte da natureza, ou seja, parte de algo muito maior do que a sociedade em que vive. Além de olhar para dentro de si mesmo, o paciente olha para fora e enxerga quanto o mundo natural faz parte de si. A relação terapeuta-cliente ganha uma nova dimensão: terapeuta-cliente-natureza. “O afastamento da natureza está vinculado ao afastamento de si mesmo, porque uma dimensão nossa é natureza.

Não a conhecer e não a descobrir é apenas uma expressão de como estamos dissociados de nós mesmos”, explica o precursor desse ramo terapêutico no país, Marco Aurélio Bilibio, representante da International Ecopsychology Society (IES) no Brasil e diretor do Instituto Brasileiro de Ecopsicologia. Na linha eco, o foco está na relação entre saúde mental e natureza, entre adoecimento pessoal, social e crise ambiental. “Carregamos crenças que desqualificam a natureza, tornando-a uma coisa a nosso serviço. Ficamos psicologicamente empobrecidos e embrutecidos no tipo de relações que temos com ela”, amarra.

Para a ecopsicologia, o ser humano nasce com um forte “inconsciente ecológico”, como definiu Roszak, mas esses registros transmitidos por DNA – assim como o “inconsciente coletivo”, cunhado por Carl Jung – têm se perdido nas sociedades industriais que valorizam o crescimento econômico sem fim. A função dessa linha verde é resgatar a herança ecológica ancestral que foi reprimida e depreciada pela cultura atual.

Mudança radical
No lugar de piso, a relva do campo. No lugar das paredes, árvores, rochas, neve, riachos e cachoeiras. No lugar de telhado, céu e ar livre. É assim que Mariana Candeia, psicóloga de formação, prefere exercer a ecopsicologia. “Depois que comecei a praticar montanhismo, passei a ter experiências muito ricas na natureza e atender no consultório já não fazia mais sentido para mim.” Ela deixou a clínica e passou a trabalhar com educação ao ar livre e desenvolvimento de liderança em áreas remotas, e acabou descobrindo a ecopsicologia.

Para Mariana, essa abordagem é uma quebra de paradigma frente às práticas mais convencionais da psicologia ocidental. “Isso porque ela já parte de um entendimento da totalidade do ser humano, em vez de estar focada na patologia e no discurso disfuncional do ser humano”, pontua. Na experiência da profissional, os pacientes saem da bolha que criaram para si e que entendem como seu “eu” para perceber que há uma cons­ciência muito maior. A natureza facilita o processo porque estimula essa amplitude da percepção.

Mariana, em particular, se especializou em vivências profundas e ancestrais em meio à natureza. Conclui este ano seu mestrado em sabedoria da terra e mente primordial, nos Estados Unidos. Mas já oferece no Brasil o Vision Quest (“Busca da Visão”), respaldada pela Earth­Tribe do Texas (EUA). Nessa prática terapêutica de dois anos de duração, as pessoas são preparadas para uma experiência solitária em jejum na mata – ocasião em que recebem uma mensagem da natureza – e depois trabalham as “fichas que vão caindo”, como gosta de definir Gabriela Ries, terapeuta holística que já está em meio ao processo, guiada por Mariana.

No último encontro do seu grupo de Vision Quest, Gabriela e companheiras fizeram um retiro individual de 24 horas na mata. “Caiu uma tempestade com muitos raios, entrou água na minha barraca e morri de medo. O ser humano quer controlar tudo, e quando estamos em contato com a natureza vemos que ela é muito mais forte”, diz. Gabriela não teve o que fazer, só deixar passar, e garante que foi libertador.

As vivências em espaços abertos costumam ser processos terapêuticos muito mais fortes do que aqueles ocorridos dentro de um consultório fechado, porque saem do discurso e da elaboração mental. Mas um atendimento feito na natureza não necessariamente é ecopsicologia, assim como não é necessário estar em lugares abertos para seguir essa especialidade. O fundamental é o terapeuta manter no seu diálogo a linguagem de reconexão com o meio para praticar ecopsicologia.

Potencial ilimitado
Em outubro de 2017, Mariana e Bilibio trabalharam juntos para oferecer pela primeira vez no Brasil uma expedição ecopsicológica, na Chapada dos Veadeiros (GO). Essas vivências, muito comuns no exterior, são jornadas de autoconhecimento durante viagem em grupo para um local sagrado para indígenas ou lugares de grande força espiritual. Apesar de ser ainda muito tímida em comparação com alguns países da Europa e das Américas do Norte e do Sul, a ecopsicologia vai se disseminando no Brasil com iniciativas como essas.

A recente criação do Instituto Brasileiro de Ecopsicologia e a primeira pós-graduação a ser oferecida na área são grandes reforços nesse sentido. A pós-graduacão latu sensu em ecopsicologia e ecologia profunda começará em agosto, na Universidade de Brasília (UnB). Com duração de dois anos, terá encontros mensais de quinta a domingo, próximos à Chapada dos Veadeiros, e atividades online.

“Em breve, ofereceremos formação em ecotuner, credenciada pela International Ecopsychology Society. Uma capacitação para quem deseja ajudar outros a vivenciar a natureza de uma forma psicologicamente mais profunda e transformadora”, adianta o diretor do IBE. Além de psicólogos, as duas formações são bastante recomendadas para educadores ambientais, guias de aventura, coachings, arteterapeutas e profissionais de muitas outras áreas.

Os cursos de ecopsicoterapia – estes, sim, restritos a psicoterapeutas – são oferecidos por duas associações pioneiras no Brasil nessa especialidade: a Comunidade Gestáltica, de Florianópolis, e o Instituto de Gestalt-Terapia (IGTB), de Brasília. O crescimento dessa abordagem tem um potencial ilimitado. A angústia em relação ao futuro do planeta deixado para as gerações futuras está crescendo. Atualmente, mais de 50% dos humanos vive em centros urbanos e, até 2050, a população das cidades deve ser cerca de 70% do total, segundo a ONU. “A ecopsicologia é uma necessidade para as pessoas que vivem a era da insustentabilidade e a hiperurbanidade. A reconexão com a natureza é uma necessidade especialmente para as novas gerações, que estão crescendo dependentes da vida digital”, diz Bilibio. Mas nunca é tarde para esse reencontro.

Testado e aprovado
O mais recente curso de Introdução à Ecopsicologia oferecido pelo Instituto Brasileiro de Ecopsicologia aconteceu em janeiro, em Alto Paraíso (GO). Foram 32 horas de conteúdo teórico e vivencial. Confira depoimentos de participantes.

“Serviu para mim como um despertar, pois me mostrou de forma clara e objetiva a relação que existe entre nossa natureza interna e a natureza que nos cerca, possibilitando uma reconexão com minha essência e a busca por uma existência mais ecológica.”
Marcelo Miorim, Brasília

“O curso me ajudou a entender como as questões humanas interferem em nosso comportamento no planeta. Trouxe reflexões internas, desde quem sou e se estou alinhada com minha essência, até um ressignificado de comportamentos de forma a (re)equilibrar o psicológico e o ecológico.”
Cristina Luttner, Brasília

“O curso (…) nos trouxe a percepção nítida de que somos realmente Unidade com todos os seres, e da nossa autorresponsabilidade pela manutenção da vida e sua extinção. Inclusive, pudemos perceber atuais sintomas psicossomáticos e espirituais relacionados com essa crise, como também percebemos algumas saídas criativas, e que há muito o que aprender aqui e agora.”
Ananda Devi, Alto Paraíso

“Em primeiro lugar, foi muito prazeroso, porque descobri que mantenho melhor meu foco quando a sala de aula é no meio da natureza – parece que meu corpo fica menos inquieto. Também foi muito interessante descobrir ‘o elo perdido’ entre o meu amor incondicional pela natureza e a manutenção de costumes que a prejudicam. Reencontrar o caminho entre minha prática e a conexão espiritual com a Terra me trouxe vários insights, inclusive sobre a relação com a minha mãe.”
Elisa, Brasília

“Creio que vivemos uma profunda experiência de nos reconectar (…) com nossa verdadeira natureza humana, a qual está extremamente corrompida pela razão mercadológica. (…) Essa oportunidade de relembrar do que somos feitos nos possibilitou ancorar uma nova energia capaz de cocriar nova rota de vida em direção à tomada de uma consciência ecológica.”
Ruti Borges, Alto Paraíso

Fonte:
www.revistaplaneta.com.br