Publicado em: sex, fev 10th, 2017

Contos de fadas x psicologia

Era uma vez…
É assim que geralmente  os  contos  de fadas  iniciam. Constituídos fora de uma verdadeira noção de tempo e espaço, pode-se dizer que esses contos são atemporais. Eles desafiaram o tempo e chegaram até os dias atuais.

Segundo a psicanalista Maria Rita Kehl, “a capacidade  de sobrevivência dos melhores contos consiste em seu poder de simbolizar  e “resolver” os conflitos psíquicos  inconscientes  que ainda dizem respeito  às crianças de hoje.

A partir do advento da Psicanálise, no final do século XIX, esse tipo de literatura – de ficção – passou a ser estudado de forma mais sistematizada. Já a sua utilização terapêutica se deu um pouco mais tarde. Desta forma, a Psicanálise é considerada por muitos estudiosos como pioneira em se ocupar das investigações sobre esses contos, eles ainda enfatizam a importância de reconhecê-los como instigadores de nossa atividade mental.

A obra de Freud tornou-se referência para os avanços dos estudos sobre o tema na medida em que “os contos de fadas” se encontram presentes ao longo dos seus escritos. Assim, ele abriu um importante campo  de  pesquisa,  desdobrado por alguns dos seus seguidores,  tais como Ferenczi e Melanie Klein, e por estudiosos contemporâneos, como,  por exemplo, Bruno Bettelheim,  entre  outros.

No decorrer da história, os contos de fadas despertaram a atenção de psicólogos e psicanalistas, dos quais se distingue o já citado psicólogo infantil Bruno Bettelheim, por ser o primeiro a analisar e registrar – do ponto de vista psicanalítico –, as ideias sobre a importância dessas histórias na vida das crianças, com sua obra clássica: A Psicanálise dos Contos de Fadas (1976).

Nas últimas décadas, os psicólogos têm se utilizado das histórias de fadas como instrumento terapêutico no trabalho com crianças,  tanto  quanto de adolescentes e adultos,  na elaboração  de suas questões, através dos enredos, personagens e conteúdos apresentados pelas próprias histórias.

Assim, vale apena destacar a questão: Qual a importância da utilização dos contos de fadas como recurso terapêutico com crianças hospitalizadas?  A condição de hospitalização infantil é considerada  como  um momento muito impactante  para uma criança, pois interfere na sua qualidade de vida como um todo. Diante disso, enfatizou-se a busca de conceitos e formas que a abordagem psicanalítica através de seus estudos sobre essa “arte literária”, o conto de fadas, – como Bettelheim também a considera – pode disponibilizar como  ferramenta  de intervenção  para ser utilizada pelo psicólogo hospitalar, no contexto de sua atuação: o hospital. Desta forma, torna-se importante compreender como os contos de fadas, utilizados como recurso terapêutico,  podem auxiliar as crianças no enfrentamento  do período de internação hospitalar.

Desse modo, é preciso entender mais a fundo como funciona a atuação do psicólogo através do uso dos contos de fadas como ferramenta de trabalho, considerado como um  desafio diante  das  limitações de tempo e espaço da permanência da criança no ambiente hospitalar. Nesse sentido,  considera-se  o papel do psicólogo de fundamental importância por se tratar do profissional que pode  utilizar-se desse  instrumento como mediador nesse contexto.

O PONTO DE VISTA DA PSICANÁLISE SOBRE O CONTO
Com o surgimento da psicanálise, o conto de fadas passou  a ser estudado de forma mais sistematizada. Ela foi considerada como pioneira em se ocupar das investigações sobre o conto e enfatiza a importância de reconhecê-lo como instigador de nossa atividade mental. É o que, também, sugerem vários autores que trataram o tema, teoricamente e de forma mais prática e clínica.

Guérin, ao fazer uma pesquisa sobre a presença dos contos  na obra de Freud, e ao referir-se à décima quarta Conferência de Introdução  à Psicanálise, revelou o quanto  esse  teórico já havia notado acerca do poder dessas  histórias em relação a seu conteúdo,  de serem  capazes  de simbolizar os desejos mais profundos do leitor ou do ouvinte. Nesse sentido, Gutfreind confirma uma  presença considerável do conto – especificamente o conto de fadas – na obra de Freud, fato este que surpreendeu o autor.  Sendo assim, é possível admitir um  registro significativo dessa forma de literatura em seus escritos.

Freud não se utilizou do conto como instrumento terapêutico, como fazem alguns autores  na contemporaneidade, todavia  foi ele que lançou um dos pensamentos mais importantes, abarcados  pelos estudiosos do assunto,  podendo-se  citar Pierre Lafforgue.  

Da mesma forma em relação aos  mitos,  Freud observou nos contos uma melhor maneira de entender a atividade mental. Eles se encontram no decorrer de sua obra, sendo sempre observados como fonte de “motivos humanos”  – contemplados pelo conto –, como por exemplo, a esperança.

O campo  das narrativas é familiar à Psicanálise.  Para alguns estudiosos, em outras palavras, a vida se traduz em uma história e o que falamos dela “é sempre algum tipo de ficção”. Autores enfatizam que a atração pela “fantasia” começa  desde cedo, na infância, e é o que sustenta a ficção. Portanto, não há registro da infância sem ela – a ficção.

O conto também pode ser compreendido como um instrumento capaz de evitar uma desordem emocional na medida em que ele pode reter o retorno desse material “reprimido” e “ameaçador”, promovendo um processo  de elaboração psíquica, evitando assim “a paralisação do pensamento”.

Dessa forma, Gutfreind acredita que “ler ou ouvir contos pode significar, então, continuar pensando sobre nós mesmos, no momento em que entramos  em contato  com sentimentos e conflitos difíceis de serem suportados e que, sem esse filtro da narrativa, poderiam  paralisar nossa  capacidade associativa ou ainda nos causar sintomas”.

Lafforgue chama a atenção para o potencial que essas  histórias têm a partir de sua estrutura e conteúdo, em ordenar os representantes mais “arcaicos da infância” – como  já mencionava  Freud –, como por exemplo, “a oralidade (fantasias  de devoração),  os sentimentos do vazio, de rejeição, entre outros”. Diante disso, o autor afirma que a criança compara os dilemas existenciais contidos nas histórias com os seus próprios, o que resulta em uma melhor administração de suas aflições.  Com essa afirmativa, o autor resume a função terapêutica do conto nos seguintes termos: “organizador” e  “continente”. 

Entre os conceitos para entender a função terapêutica do conto, também se encontra  o lúdico. Segundo Gutfreind, a ludicidade acontece com o encontro entre a criança e a história. Para o autor, é se divertindo de maneira simples ou experienciando o prazer (o jeito de brincar) que a criança cresce em  sua capacidade  mental,  desenvolvendo “espaços psíquicos”, como suporte de vida imaginária, de sua capacidade criativa e de resistência às “situações traumáticas” da vida, sem perder o equilíbrio de sua saúde mental, logo, enfrentando as enfermidades.

Outro ponto interessante na literatura psicanalítica sobre os contos,  e que merece destaque,  é a relação entre eles e os sonhos. Para se falar sobre o tema, pode-se dizer que ao referir-se ao artigo de 1913 – A ocorrência, em sonhos, de material oriundo de contos de fadas – Gutfreind  afirma que Freud reconheceu a importância  dos contos populares na vida mental de seus pacientes. De acordo com o autor, ao descrever dois casos clínicos de seus pacientes, Freud confirma a “hipótese” de que os recursos e os conteúdos  das  histórias escutadas na infância apareciam, frequentemente, em seus sonhos.

A esse respeito, Freud faz a seguinte elucidação: “Não é surpreendente descobrir que a psicanálise confirma nosso reconhecimento do lugar importante que os contos de fadas populares alcançaram na vida mental de nossos filhos. Em algumas pessoas, a rememoração de seus  contos  de fadas favoritos ocupa o lugar das lembranças de sua própria infância; elas transformaram esses  contos em lembranças encobridoras”.

Ao fazer uma leitura da Interpretação dos Sonhos, Freud (1900), Guérin,  por  exemplo,  salientou que o conto pode ser “um local de estoque” de algum problema não solucionado,  de onde se pode dar início a elaboração da angústia. Essa probabilidade pode ser encontrada no núcleo do trabalho de autores que, na contemporaneidade, confirmam o valor terapêutico do conto.

Diante disso, é interessante ressaltar  que essa relação de proximidade entre o conto  e o sonho, presente nos escritos de Freud, também  é constatada  por outros estudiosos contemporâneos.

Interessa, também, assinalar que Freud se utilizou dos “contos de fadas” para interpretar os sonhos e melhor entender os conflitos neuróticos de seus pacientes, utilizando ambos, contos e sonhos, com vistas a trazer representações (latentes) significativas sobre esses conflitos.

Outros autores afirmam que os contos dispõem de um material para satisfação de um desejo infantil, tanto quanto nos sonhos.  Também é possível observar que o conto e o sonho seguem os mesmos recursos  como estrutura,  ou seja: dramatização,  deslocamento, condensação e simbolização.  Portanto, cabe dizer que Freud, de certa forma, incumbiu a seus seguidores, tanto quanto a estudiosos contemporâneos, a responsabilidade de estudar, através do viés psicanalítico, os mitos, os contos e as origens de nossa  civilização. 

Interessa assinalar que a psicanálise apresentou nomes influentes para dar início às pesquisas referentes à função terapêutica do conto, estudando conceitos específicos como: “triunfo do ego”, “organização do pensamento” e “abertura de espaço potencial”. Nesse sentido, é importante lembrar o renomado Bruno Bettelheim que foi quem exerceu a posição de precursor nesse domínio, sendo o primeiro a analisar e registrar – do ponto de vista psicanalítico –, as ideias sobre a importância das histórias de fadas na vida das crianças, com sua obra clássica: A Psicanálise dos Contos de Fadas (1976).

Foi percebido, através dos  estudos, que os autores  pesquisados trilharam (ainda que de forma implícita)  o mesmo  percurso  compreensivo  sobre o problema central que suscitou essa pesquisa, na medida  em que indicam uma  positividade do uso do conto de fadas para a saúde  psíquica das pessoas.

Apesar de haver vários conceitos que confirmam os efeitos que o conto pode exercer sobre os sujeitos, e que sem dúvida os estudos comprobatórios sobre essa eficácia sejam abundantes, contudo alguns autores consideram que em relação a sua utilização terapêutica,  ainda se tratar de um campo pouco explorado.

O mais importante  para a teoria psicanalítica em relação ao conto é o fato dela poder continuar avançando  em seus  estudos  e registros  relacionados  ao mesmo.

Fonte:
www.isaudebahia.com.br