Publicado em: seg, out 2nd, 2017

Hortoterapia

O contato direto com a natureza é capaz de ajudar na recuperação de doenças, estimulando a vontade de a pessoa viver e lutar.
Conheça a Garden Therapy, ou hortoterapia, uma eficaz coadjuvante dos tratamentos convencionais.

A hortoretapia é a técnica que combina cultura de plantas e jardinagem ativa e passiva (contemplação ou “jardim-reflexo”), e é considerada eficaz como coadjuvante das terapias convencionais.
A médica e consultora especializada em Healing Gardens (Jardins da cura) da Faculdade de Agronomia e Farmácia da Universidade de Estudos de Milão, autora do livro II giardino che cura (“O jardim que cura”, Ed. Giunti, sem tradução para o português), Cristina Borghi conta que a terapia nasceu antes que a psiquiatria se tornasse uma ciência.
Entre os séculos XVIII e XIX, observou-se que pacientes psiquiátricos melhoravam quando se envolviam em atividades de jardinagem em sentido amplo (cortar lenha, preparar o fogo, carpir ou realizar atividades domésticas). O contrário, ou seja, se manter inativo, piorava a saúde física e mental dos doentes.

Mecanismos em ação

A partir daí, a hortoterapia passou a ser uma alternativa útil que faz do paciente um protagonista do próprio restabelecimento. É que a terapia funciona colocando em movimento três mecanismos distintos: a interação com as plantas, a ação e a reação.
O primeiro favorece a reciprocidade a partir do médico: “Muitas vezes o profissional tem dificuldade em aproximar-se porque o doente está inserido numa realidade de desafeto, delírios e alucinações”, explica Cristina. Além disso, “a capacidade de interagir é fundamental para pessoas que sofrem com depressão, ansiedade, autismo e demência.
A terapia também atenua sintomas como a pouca resistência ao estresse, falta de autoestima e vitimismo”, completa. O segundo mecanismo, a ação, mantém o doente ocupado, distraindo-o, dando-lhe segurança, e é um ótimo substituto do trabalho. Favorece a concentração, sendo também um satisfatório processo criativo. O terceiro e último mecanismo, a reação, constitui um elemento de ligação entre o paciente e o jardim, que se estabelece a partir da resposta emotiva que uma paisagem ou uma flor suscitam. “Esse mecanismo alcança o inconsciente porque somos psicologicamente dependentes das meio da mudança”, revela. Segundo Cristina, observando a natureza, aprendemos a conhecer e a enfrentar a vida. Amadurecemos e crescemos adquirindo uma compreensão das coisas indispensáveis para superar os desafios do cotidiano. “Um jardim representa o vínculo concreto com admirá-lo, aumenta o sentido de controle da doença e estimula a vontade de viver e lutar, mesmo que a qualidade de vida esteja objetivamente ruim.” A médica lembra que os cuidados com um jardim diminuem o estresse porque permitem uma pausa que coloca a mente em estado meditativo. “O encanto da beleza age diminuindo do os sentimentos negativos, acalma, leva ao otimismo, à esperança e promove a confiança na cura: um jardim corresponde ao arquétipo do Paraíso:
um lugar belo, bom e encantado onde vige a harmonia. O que precisamos é exatamente disso e nada mais.”

As muitas utilidades

Com tantos atributos, a hortoterapia tem sido utilizada em institutos correcionais, nos casos de dependência química ou alimentar, fisioterapias, doenças mentais, no tratamento de idosos e doentes senis, bem como entre crianças com necessidades especiais ou não. Para os mais velhos, a jardinagem possui um efeito extraordinário, pois estimula a ação e exercita a coordenação mão-olhos, melhora a capacidade motora fina, ajudando na abstração do pensamento obsessivo da perda de forças e da saúde. “O resultado é que eles se sentem não só úteis e produtivos, mas menos tristes e solitários.” Nas doenças crônicas, degenerativas ou invalidantes, quando a resposta aos remédios é insatisfatória, a terapia torna a vida mais agradável: “Mesmo que o doente não se cure, ele se sentirá melhor, mais relaxado”, completa Cristina. A terapia pode ter também ação preventiva porque atividades ao ar livre pressupõem uso dos músculos e cérebro, exposição aos benefícios do sol e ar puro. Assim, é uma boa alternativa contra as doenças típicas da cidade: obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, osteoporose e câncer. Aliás, para obter resultados clinicamente relevantes para as doenças coronárias bastam 225 minutos de jardinagem por semana, conforme concluiu um estudo feito por Carl J. Caspersen, e publicado no American Journal of Epidemiology.

Bem-estar físico e mental

Indagada sobre como e em quanto tempo as pessoas reagem à terapia, Cristina responde que a maioria encontra conforto em contato com a natureza: “Mas mesmo esta pode surtir alguma resistência naqueles que não estão prontos para despertar o médico que existe em cada um de nós”. Quanto à questão do tempo, a médica diz que é difícil saber, pois cada um é único e tudo depende da gravidade da doença, sua duração, além da forma como a pessoa reage afetivamente. “Funciona mais ou menos como numa terapia farmacológica: a diferença é que tomar remédios desresponsabiliza o doente.” E pondera: “Muitas vezes, uma pessoa adoece porque se sente insatisfeita com a própria vida e deseja encontrar uma cura milagrosa, rápida e eficaz que não existe. Sem esforço e trabalho constantes não se chega a lugar algum. Todos nós precisamos nos ocupar da nossa recuperação, pois a equação ‘terapia = remédio’ não é válida. Seria muito simples tomar uma pílula e ficar bem. “Porém tudo na vida é conquistado com sacrifício, até mesmo o bem-estar físico e mental”, conclui a especialista.

Verdes hospitais

Comentando sobre a importância das áreas verdes nos hospitais, Cristina Borghi revela que estudos multidisciplinares, destacando o trabalho do arquiteto Roger Ulrich, da Universidade Texas A&M (EUA), confirmam os benefícios terapêuticos pós-operatórios para pacientes que puderam apreciar o verde da janela de seus quartos. Especializada em Ciências Ambientais e Healing Gardens, a professora da Universidade de Estudos de Milão, Sara Pasqui, confirma que “o ambiente influencia os comportamentos das pessoas e as formas de relacionar, a qualidade do próprio serviço, a criatividade e a eficiência do pessoal”. No caso dos hospitais, acrescenta, a situação pode ser bastante difícil porque o tipo de trabalho ali desenvolvido, por si só, é bastante difícil e, por isso, “todas as equipes estão sujeitas ao exaurimento, perda de controle e altas taxas de demissões”. “Infelizmente, a situação é agravada pela falta de espaços verdes pensados para possibilitar breves momentos de pausa e distração, retomada do autocontrole e abstração do contato diário com a morte e o sofrimento alheios”, explica. Conforme Sara, para os pacientes, “o efeito terapêutico do verde é facilmente mensurável por indicadores que descrevem suas condições físicas (pressão sanguínea, presença de infecções, nível das funções motoras etc.), bem como pela superação de alguns problemas psicológicos devidos à carga de estresse a que estão submetidos”. E esclarece: “Geralmente esses estados são causados pelo isolamento do mundo familiar e dos amigos, pela incompreensão dos jargões médicos e o temor diante dos procedimentos, além da impossibilidade de ter informações sobre sua própria condição”.

Fonte:
http://revistavivasaude.uol.com.br
Revista VivaSaúde Edição 75