Publicado em: ter, jun 19th, 2018

Individuação e análise

A individuação é um processo de diferenciação psicológica que tem como finalidade o desenvolvimento da personalidade individual – segundo o Léxico Junguiano (Cultrix, 1991).

Ao longo de nossas vidas desenvolvemos a individuação. Certamente, cada sujeito terá uma experiência particular durante seu caminhar do nascimento à morte. Quando esse processo é atravessado por uma análise pessoal, pode-se entender que, na maioria dos casos, haverá um aprofundamento da capacidade de compreensão interna, um dos mais importantes e preciosos objetivos do método psicoterapêutico.

Tudo isso se dá na engrenagem do ego com o inconsciente. Porém, não se deve pensar que a pessoa se diferenciará como ser único sem uma participação do coletivo. Afinal, ela se relaciona com a humanidade para sua própria sobrevivência. Segundo Jung: “Como o indivíduo não é apenas um ser à parte, separado, mas pressupõe, pela sua existência, uma relação coletiva, segue-se que o processo de individuação deve conduzir a relações coletivas mais amplas e não ao isolamento”. (O.C. 6, §758)

Jung também coloca que o valor do caminhar rumo à individuação é maior do que ela em si, já que nunca a alcançamos por completo: “A meta é importante somente enquanto ideia; o essencial é o opus que conduz à meta: isto é a finalidade da vida”. ( O.C. 16, §400).

Quando alguém entra em análise está em busca, possivelmente, de resoluções de problemas, de conflitos, de angústias. Tudo isso se dará a partir de um trabalho pessoal de mergulho em si. O grau de comprometimento psicoemocional é variável. Não se deve considerar as psicopatologias como a razão principal do atendimento psicológico e sim o desejo interno que o sujeito apresenta diante de seu espelho. É isso que o mobilizará a seguir.

James Hall, em seu livro A experiência junguiana, coloca que o ego em processo de individuação alcança, inúmeras vezes, pontos onde deve transcender a figura que havia montado de si mesmo. Sublinha que é uma experiência dolorosa, pois o ego é “apegado” em uma identificação contínua com essas imagens já formadas anteriormente – acreditando que estas constituem a pessoa real. Contudo, “quem sou eu?” deverá ser uma pergunta em aberto no decorrer da história do sujeito.

Transformar-se requer abrir mão de algumas manifestações do ego em prol de outras. Nem sempre essa passagem ocorre de modo tranquilo. Muitos sintomas neuróticos se formam por conta do ego tentar recuar diante de um desenvolvimento necessário à individuação. Como exemplo, Hall sublinha no livro supracitado que se houver um recuo diante da aprendizagem da expressão do sentimento normal de afirmação, costuma haver o desenvolvimento de um quadro clínico de depressão – embora possa parecer que esta foi causada por fatores externos. A compreensão analítica mostra que se trata, principalmente, de uma questão de tomada de consciência e de integração das potencialidades do indivíduo. Completa Hall: “A partir de um ponto de vista junguiano, portanto, costuma ser importante atravessar a depressão, vivenciando o conflito interno até chegar a uma solução, e não apenas lidar com os sintomas da depressão até que eles deixem de existir”.

É importante que se entenda sempre a peculiaridade de cada sujeito em seu evento vivencial. Nunca haverá uma fórmula para uma individuação mais ampla ou profunda. Cada um traçará seu próprio percurso com ajuda analítica ou não. Sem dúvida, quando em uma relação analítica, o indivíduo terá mais chances de executar essa passagem auxiliado psiquicamente em sua jornada de decisões e consequências com um nível possivelmente menor de desestruturação, tanto para ele mesmo quanto para aqueles ao seu redor. É fato, porém, que a solução sempre assume um caráter particular. O papel do analista é apenas de acompanhar, por vezes indicando a percepção de um passo falso mais do que para apontar o que é certo. As descobertas pertencem ao analisando.

Autora:

Yone Buonaparte d’Arcanchy Nobrega Nasser _ CRP: 05/10463
psi.nasser@terra.com.br