Nise da Silveira (1905 -1999), grande junguiana e profissional inovadora em sua apreensão no tratamento das doenças mentais, imprimiu seu estilo trazendo uma revolução nesse campo.
O lidar com o doente – de modo a não resumi-lo ao seu quadro clínico – trouxe perspectivas de um trabalho onde a arte e o afeto eram variáveis constantes.
Outro ponto que se fez importante em suas técnicas foi a valorização da presença de animais, principalmente gatos, no âmbito dos relacionamentos psicoafetivos de seus pacientes internados.
“Gatos, a emoção de lidar” é um livro simples e extremamente interessante que compila seu pensamento e algumas de suas experiências com esses animais durante a vida.
Considera que o pensamento cartesiano (Descartes 1596 -1650) alijou a ideia de equivalência entre seres quanto a importância da existência de cada um, privilegiando o raciocínio lógico humano. Nise afina-se com o pensamento de Montaigne (1533 – 1592), pensador que criou o gênero literário Ensaios, quando este repudia “a realeza imaginária que o homem atribui a si próprio sobre as outras criaturas.” (Ensaios, cap.XII).
Nise relembra a importância dada aos gatos no Egito Antigo e, principalmente, a veneração a três deusas leoas – Sekhmet, Pekhet e Tefnut – representações de uma mesma deusa em situações distintas, que também se vertiam em Bastet, forma com corpo de mulher e cabeça de gata, tornando-se dóceis e amáveis. Há uma lenda importante sobre essa capacidade de metamorfosear-se, onde Tot – deus da sabedoria – conversa com Tefnut e, com sua fala mansa, consegue levá-la ao desejo de voltar para casa na forma de deusa gata e não leoa.  M.L. von Franz (1915- 1961), discípula e colaboradora de Jung, traça um belo quadro sobre isso sublinhado por Nise no livro supracitado: “Estamos diante da primeira sessão de psicoterapia(…). Que Sekhmet, Pekhet e Tefnut sejam a mesma pessoa e, ainda mais, que essas temíveis divindades leontocéfalas se identifiquem à amável Bastet, causa estranheza. Entretanto, nessas metamorfoses das deusas, os egípcios exprimiam em imagens a verdade psicológica do eterno jogo de antagonismos, da luta de opostos, do predomínio momentâneo de um dos dois polos contrários inerentes à psique humana e talvez ainda mais peculiares à mulher”.
O fator que se sustenta aqui é que a linguagem mítica é viva e apresenta-se nas experiências psicológicas. Na Casa das Palmeiras, instituto criado por Nise, uma paciente tentou atear fogo no almoxarifado e depois acomodou-se em uma poltrona tranquilamente. A psiquiatra disse que sua conduta era como transformar-se de Sekhmet a Bastet e expôs o mito a ela. Esta pedia que o repetisse sempre, tal qual uma criança pede para que se reconte uma história até que interiorize seu sentido e significados que irão moldar sua psique. Mostrava-se, nesse instante, o valor terapêutico do mesmo. Mais tarde foi formado um grupo para a leitura e representação do mito, ampliando o trabalho psicológico circum-ambulado, isto é, a interpretação da imagem mítica refletindo-se vários pontos de vista sobre a mesma.
A figura do gato também é forte nos conteúdos oníricos, onde frequentemente aparece como símbolo do instinto, como emissário do mundo interno etc.
O desenvolvimento de terapêuticas ocupacionais criativas iniciou-se no Centro Psiquiátrico Pedro II entre 1946 e 1974 a partir da visão diferenciada de Nise sobre os doentes. Assim, os mesmos saíam das enfermarias para as oficinas, não sem haver vozes contrárias a essa iniciativa.
Um dia um rapaz que frequentava a terapia ocupacional pediu para entrar na sala de atividades femininas ao invés da de atividades masculinas – já que eram divididas – e se interessou por um pano macio e fez um gato. Feito, rascunhou uma pequena poesia e disse: “Como é macio! Sinto grande emoção de lidar com ele entre minhas mãos”. E assim emoção de lidar foi eleito o termo substitutivo para aquela tipo de terapêutica.
O Museu de Imagens do Inconsciente começou a tomar forma apenas em 1973, tornando-se um acervo de grande importância artística e para o entendimento profundo dos meandros do inconsciente pessoal e coletivo.
Um dos capítulos desse livro de Nise da Silveira nomeia-se Gatos coterapeutas. Aborda que no projeto realizado no Centro Psiquiátrico Pedro II não havia a intenção de proteger os animais que ali circulavam, mas sim relacioná-los com o homem.
Foi fortemente observado que as relações afetivas entre os humanos e os animais traziam resultados terapêuticos extremamente positivos, apesar de que no Brasil ainda não havia uma compreensão nesse sentido. Porém, estudos e pesquisas de fora trouxeram consistência a esse entendimento.
Finalizando, hoje entende-se que animais como cães, gatos, peixes e pássaros – além de cavalos e golfinhos em outros ambientes que lhe sejam propícios – são requisitados como coterapeutas em tratamentos específicos e em hospitais franceses, canadenses, americanos, suíços etc., pelo elo psicoafetivo que são capazes de formar com os doentes, trazendo grandes melhorias na qualidade de vida dos mesmos.
Mais uma vez, Nise da Silveira pioneira!

Yone Nasser  – CRP 05/10463
LAPSI-UVA
Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Analista junguiana especializada em Psicossomática
psi.nasser@terra.com.br