Publicado em: seg, mar 25th, 2019

Nomofobia

Vício em dispositivos móveis pode levar à depressão.
Ainda extremamente estigmatizada pela sociedade, a depressão vem incapacitando cada vez mais pessoas em todo o mundo. Dados de um estudo divulgado em 2017 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que os casos de depressão aumentaram em quase 20% apenas nos últimos dez anos: em 2005, cerca de 263 milhões de pessoas sofriam com o transtorno; em 2015, o número saltou para 322 milhões.

É difícil dizer com exatidão quais os motivos por trás desse crescimento, mas estudos sobre dependência tecnológica conduzidos nos Estados Unidos e na China dão uma pista do que pode estar acontecendo.

Medo de ficar sem celular
Os dispositivos móveis estão por todos os cantos e se tornaram grandes aliados e facilitadores do dia a dia de muita gente. Prova disso é que a Fundação Getúlio Vargas de São Paulo prevê que até outubro de 2017 haverá tantos smartphones quanto habitantes no Brasil – ou seja, 208 milhões desses aparelhos. O problema é que o uso excessivo e indiscriminado deles pode se tornar um transtorno psicológico chamado nomofobia, que pode desencadear a depressão.

Um estudo publicado pela City University de Hong Kong no periódico Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking entrevistou 301 estudantes universitários entre 18 e 37 anos na Coreia do Sul e concluiu que eles enxergam smartphones, tablets e notebooks como parte de sua identidade, uma extensão de seus corpos. Quando incapacitados de se comunicarem utilizando tais aparelhos, os entrevistados acabaram manifestando desconforto, angústia e ansiedade – alguns dos sintomas da nomofobia, que vem do inglês “no mobile phobia” (ou medo de ficar sem celular).

Esses sinais também são cada vez mais comuns entre os brasileiros, que, segundo dados de uma pesquisa feita pela Millward Brown Brasil em parceria com a NetQuest, passam em média 3h14 por dia conectados ao smartphone. Entre os jovens da geração millennial, o tempo médio apegado ao gadget é ainda maior: 4h diariamente. Apesar de o tempo excessivo que o indivíduo gasta usando o aparelho despertar curiosidade, são os prejuízos que esse uso ocasiona na vida que realmente preocupam.

A psicóloga especialista em fenomenologia existencial e mestranda em tanatologia e humanização das práticas em saúde pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Beatriz Mendes explica que há quem prefira “investir” no mundo virtual porque ali elas encontram e se identificam com quem passa por questões parecidas com as suas. “Para muitas pessoas, o mundo real evoca uma série de sensações ruins, e elas acabam se voltando para quem tem sensações semelhantes e não consegue espaço nesse mundo real”, explica. Todavia, a psicóloga pondera que esse aspecto positivo se torna um problema quando o indivíduo não consegue equilibrar a participação nos dois mundos e acredita ser impossível ficar longe do dispositivo. “Estamos lidando com uma limitação, um contexto em que a pessoa não consegue mais conviver com o fato de estar sem o aparelho. Há um fechamento de possibilidades”, pontua.
Para a psicóloga Elisa Faria, esse vício é equiparável ao de dependentes químicos, que sofrem
crises de abstinência: “Quando o indivíduo está longe do dispositivo móvel, o organismo corta a liberação de dopamina, causando taquicardia e desespero”. Ela ainda defende a ideia de que isso acaba se tornando um círculo vicioso, em que a pessoa cada vez mais substitui a vida social pelas relações virtuais para saciar a dependência.
Distanciamento da realidade e isolamento

Publicado na Psychology of Popular Media Culture, um estudo da Universidade de Brigham Young, dos Estados Unidos, afirma que o vício em dispositivos móveis desencadeia um processo de isolamento que interfere e afeta as relações socioafetivas. Para Faria, o fenômeno faz o indivíduo substituir seus referenciais reais, constituídos pela família, amigos e pessoas próximas, por uma rede de atenção online. Nessa rede, é a quantidade de comentários, curtidas e compartilhamentos que as publicações têm que determina o nível de felicidade de alguém.

Mendes vai além e afirma que quando os números não são suficientes para saciar as expectativas, as relações virtuais sucumbem: “A rapidez e a volatilidade dos meios tecnológicos acabam tornando as coisas menos palpáveis e menos concretas. E quando esse mundo virtual não oferece sustentação, a pessoa pode não mais conseguir voltar para o mundo real por ele gerar insatisfações e frustrações”.

Resultado disso é que as conversas pessoais, as saídas com os amigos, o chope da sexta-feira à noite, os passeios familiares aos fins de semana e outras atividades que antes faziam parte do cotidiano são deixadas de lado. Em busca de uma realidade fabricada e vendida no meio virtual no que Mendes classifica de “pacotes” de como ser feliz, de como ser rico e de como ser bem-sucedido, o indivíduo acaba se distanciando completamente do que é real. “O que acontece é que os pacotes acabam não encaixando na vida e na realidade de que quem os compra. E essas pessoas acabam questionando quem elas são e por que elas não atingem o que está exposto nas redes sociais”, diz a mestranda da UFRN.
Preso numa espécie de limbo onde não consegue alcançar as metas para se satisfazer no mundo virtual e retornar ao mundo real, o indivíduo pode se fechar e começar a emitir sinais de que está com depressão. “O primeiro sinal de que há algo errado é a apatia”, explica Faria. “A pessoa passa a não se importar nem com coisas boas, nem com coisas ruins. Ela apenas existe sem se dar conta do que está acontecendo ao seu redor”.

Qual a medida certa?
Esse processo de isolamento que pode levar à depressão assusta e faz familiares e amigos acreditarem que a melhor solução é cortar completamente o uso dos dispositivos e das redes sociais, principalmente quando envolve crianças e adolescentes – considerados pelas especialistas os mais propensos a desenvolver o vício. Elas alertam, entretanto, que é impossível eliminar algo que faz parte do cotidiano da sociedade contemporânea e que o mais correto é aprender a dosar.

Além do equilíbrio, o coordenador de informática, comunicação e design do SENAC-RN, José Renato Rodrigues, defende a ideia de que tudo é uma questão de educação e orientação, sobretudo aos jovens. “Tudo vem da educação, da família e da forma como você foi criado. O problema não é a tecnologia”, pontua.
Mendes concorda e é enfática: “As relações familiares acabam contribuindo, sim, para esse voltar para a tecnologia”. De acordo com ela, é importante ter um bom relacionamento familiar dentro de casa para que se encontre a medida certa: “O que acontece é que há relacionamentos familiares muito precários que dificultam o estabelecimento de uma medida, de um limite”.

O educador e a psicóloga também combinam que, quando esse limite é estabelecido, a tecnologia pode contribuir positivamente em vários aspectos na vida de uma pessoa. Na visão de Rodrigues, é preciso desmistificar que a punição é a melhor solução e apresentar alternativas que transformem o interesse das pessoas nos recursos tecnológicos em algo mais proveitoso e produtivo. “É possível ensinar informática, raciocínio lógico, matemática, empreendedorismo e praticamente qualquer área do conhecimento”, defende. Ele ainda explica que, quando utilizados corretamente, esses aparelhos podem transformar vidas e abrir oportunidades jamais imaginadas.

Mendes, por sua vez, destaca que o equilíbrio associado a filtragem do conteúdo que é consumido traz benefícios até mesmo para quem sofre de depressão.

“Podemos pensar no compartilhamento de experiências, com pessoas se tornando exemplo de como superar e buscar ajuda através do que elas viveram. Pessoas que têm dificuldades em relacionamentos interpessoais podem encontrar no mundo virtual uma via em que podem começar a se articular de uma maneira que podem trazer isso para o mundo real. Também podemos pensar no encurtamento de distâncias para manter vínculos e até mesmo no estímulo a pensar sobre as diferenças com as diversas informações que existem publicadas online”, exemplifica a especialista.

Os três especialistas concordam que tanto a nomofobia quanto a depressão podem ser evitadas quando os dispositivos móveis são utilizados de maneira saudável, sem perder o controle sobre eles. “O ideal é que, ao invés de ficarmos pensando sobre o que o virtual vai gerar, nos atentemos para como o real está para sustentar o que o virtual tem para oferecer”, sugere Mendes. Quando não se consegue estabelecer essa harmonia, então o conselho é buscar ajuda profissional para frear o transtorno e a dependência e retornar a interagir com o mundo real.

Fonte:
www.canaltech.com.br