Publicado em: qui, jul 9th, 2015

Notícias de Angola

As crianças que vivem no centro de acolhimento Horizonte Azul, localizado em Viana, acreditam que é possível sonhar com um futuro melhor e deixar para trás as razões que ali as fizeram chegar: acusações de feitiçaria, maus-tratos, violação, morte dos pais e muitas outras difíceis de se imaginar. Apesar de tudo aquilo por que passaram, hoje alimentam a esperança de dias melhores. Dorca tem 14 anos e faz parte da família que tem residência permanente no centro de acolhimento de meninas abandonadas Horizonte Azul. Acusada de feitiçaria por uma tia materna, em 2005, foi posta fora de casa pelos próprios pais. Com uma tristeza óbvia, relata que foi levada para uma igreja, depois da irmã da mãe a ter acusado, quando tinha apenas oito anos, de lhe ter apertado o pescoço enquanto esta dormia. Depois de ter permanecido alguns dias numa igreja, regressou a casa, da qual foi posteriormente expulsa pelos pais. Sem eira nem beira, começou a dormir na rua, tendo ido parar ao Lar Kuzola, de onde foi depois transferida para o centro Horizonte Azul, onde ainda permanece. Actualmente, Dorca, cuja mãe lhe desconhece o paradeiro e que afirma não querer voltar para casa, está a frequentar a quarta classe e sonha ser engenheira de petróleos. Jura a pés juntos não saber o que é feitiço e, apesar da reprovável atitude dos pais, afirma que vai “cuidar bem deles, pois sou religiosa e aprendi a perdoar”. Igualmente sonhadora, Marta, de 13 anos, vive há dois no centro, depois de ter abandonado a casa materna, por a mãe e o padrasto lhe baterem “por tudo e por nada”. O irmão, então com apenas quatro anos, solidarizou-se com ela e seguiu-a. Foram viver na rua e não mais se separaram. Primeiro foram levados para o Lar Kuzola pela Polícia Nacional, onde ficaram dois anos, e depois transferidos para o centro, onde o pequeno Ronaldo é o único menino, por não aceitar separar-se da irmã. Marta sonha ser médica e estuda afincadamente com o constante pensamento no seu futuro e no do irmão. O resto é passado, porque “hoje a vida é só amor e carinho da Tia Esperança e dos companheiros”, diz. A caminho de concretizar o seu sonho está Marcelina, 20 anos, a viver no Horizonte Azul há 11. Tinha apenas a quarta classe e hoje estuda auditoria numa universidade privada. Com os olhos rasos de lágrimas, confessa preferir não contar as razões que a levaram até ali. “Tudo faz parte do passado. Os meus pais morreram num dos bairros de Malange, minha terra natal”, sussurra, acrescentando que foi encontrada na rua pelo padre Horácio e depois levada para o centro de acolhimento ACA, na Maianga. De lá, foi transferida para o Horizonte Azul. Para ela, acolher crianças que por várias razões abandonaram ou foram abandonadas pela família é uma obra que tem uma dimensão humana incomparável. Por isso, Marcelina pede aos responsáveis dos diversos centros de acolhimento, espalhados por Angola fora, para exercerem esta actividade caridosa com amor e carinho e não pensarem em lucro. Contrariamente a outros lares, afirma, este aposta seriamente no acolhimento e formação das crianças. Os fundos que o centro angaria são inteiramente empregues para o bem das crianças, sublinha. Exemplifica que ela e mais cinco companheiras estão numa universidade privada e os estudos estão a ser integralmente pagos pela direcção. Carinho e afecto A presidente do Conselho de Direcção da Associação Horizonte Azul, Maria Esperança dos Santos, ou simplesmente Tia Esperança, diz que a sua razão de viver é saber que várias crianças desprezadas pelos pais biológicos encontram carinho, afecto e educação na sua instituição. Fundada durante a guerra, numa altura em que só existiam centros de acolhimento para rapazes, a Associação Horizonte Azul, com 819 crianças, 55 das quais internas, surgiu para recuperar meninas que por diversas razões fizeram da rua o seu habitat. O objectivo é moldar e incutir-lhes um comportamento socialmente aceitável. Os fundos para a sustentabilidade da Associação provêm, fundamentalmente, das organizações que apoiam projectos humanitários e filantrópicos. O objecto social da Horizonte Azul é o acolhimento de meninas abandonadas e que posteriormente são inseridas no sistema geral de ensino, numa escola de 11 salas afecta ao centro. Para além das disciplinas regulares, os alunos ainda recebem aulas de trabalhos manuais, culinária, informática, trabalhos de campo e inglês. O principal patrocinador é, nas palavras de Esperança dos Santos, a ONG americana Winrock International, cujo apoio incide unicamente na vertente educacional. Uma década depois O balanço de 11 anos de actividade é a todos os níveis satisfatório para a responsável. Segundo explica, é fácil chegar a essa constatação, bastando para tal observar as meninas que há anos vieram da rua com comportamento reprovável e hoje apresentam um perfil aceitável. Para esta tarefa, as meninas merecem todo o apoio, incluindo de especialistas de certas áreas do saber, razão pela qual lamenta a falta de sociólogos e psicólogos. No passado contou com o apoio de um psicólogo, mas acabou por se ir embora depois de ter encontrado outro emprego com melhor salário. Actualmente, recebe apoio de estudantes finalistas da Universidade Piaget, dos cursos de Psicologia e Sociologia. Além disso, também faz questão de realçar o apoio prestado pelos finalistas do Instituto João Paulo II, e que deixaram um vazio quando acabaram o seu trabalho de fim de curso e regressaram às regiões de origem. Ao longo destes 11 anos de um trabalho aturado, a experiência mostrou-lhe que a recuperação de meninas é possível e que o convívio entre elas, sob orientação dum adulto, é uma grande terapia. Esta realidade é, do seu ponto de vista, um indicador de que o projecto Horizonte Azul deu frutos. “Quando vejo crianças que ontem chegaram ao lar sem esperança de um dia melhorar e hoje conseguem estar ao lado de outras crianças sem qualquer complexo, sabem estar, têm presença, conseguiram resgatar os valores que quase eram perdidos, sinto-me orgulhosa e chego à conclusão que valeu a pena a aposta”, afirma. Tia Esperança, que é licenciada em Biologia pela Universidade Agostinho Neto, assume ter 821 filhos, sendo 819 crianças do centro e mais duas de que é progenitora, e diz que a actividade não é fácil, mas “tudo tem sido possível, porque a mulher é por natureza mãe e por isso desenvolve sentimentos como o amor, carinho e afecto, para transmitir ao próximo”. Acrescenta que pequenos gestos, como passar a mão na cabeça de uma criança que passou por situações adversas, podem trazer um sentimento de esperança ao petiz. “Quando acolho uma criança que foi abandonada pela própria mãe, seja qual for a razão, sinto-me uma super mãe, porque faço aquilo que uma mãe biológica ou, se quisermos, a própria mãe, não conseguiu fazer”, afirma. Um projecto de futuro Uma das grandes preocupações do projecto passa por criar condições para gerar fundos que garantam a sua sustentabilidade. Presentemente, o centro tem uma panificadora construída com o apoio da Chevron e que dá trabalho a 20 pessoas e pão à família do centro. Além do projecto de acolhimento, Maria Esperança pensa erguer, no espaço onde funciona o centro, um politécnico comunitário para acolher crianças da comunidade pertencentes a famílias com poucas perspectivas de vida. O objectivo é que as crianças possam cumprir um ciclo completo de estudos. O grupo alvo será o mesmo – famílias de baixo rendimento e carenciadas – e o objectivo também: transformar o horizonte cinzento destas crianças num azul cheio de prosperidade.

Deixe um comentário

XHTML: você pode usar html tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>