Publicado em: qua, ago 15th, 2018

O bem e o mal na psicologia analítica

O tema do bem e do mal é sempre presente ao longo das linhas de entendimento da humanidade, sejam elas filosóficas, religiosas ou psicológicas – entre outras apreensões.

Em um grupo de trabalho de Stuttgart em 1958 Jung colaborou com observações em uma pequena palestra, procurando mostrar também como o analista e o analisando lidam com esses aspectos da realidade, já que o bem e o mal se apresentam no dia-a-dia.

Jung descreve seu trabalho como empírico e daí a importância da observação nas relações terapêuticas. Percebe que quando há referência ao que é bom ou mau é algo nascido na experiência pessoal de uma pessoa diante de um fato vivido ou julgado. Porém ressalta que talvez a apreensão realizada não corresponda aos fatos porque, enquanto sujeitos, a subjetividade costuma interferir de acordo com os conteúdos internos particulares dos mesmos.

Jung proferiu a seguinte ideia: “Se quisermos entender uma questão tão complexa quanto o bem e o mal, é preciso partir do seguinte: Bem e mal são em si princípios; e princípios existem bem antes de nós e perdurarão depois de nós.

Assim, a qualidade profunda do bem e do mal não são conhecidas. A realidade pode ser apreendida de várias maneiras. Jung demonstra esse fato nas vivências analíticas. Em algumas situações teria entendido que algo seria muito prejudicial ao paciente e que a sessão não teria sido profícua em mostrar a situação na qual o mal se impunha. Na sessão seguinte, contudo, o paciente trazia uma experiência completamente diferente, onde demonstrava que ter passado por tal situação trouxe a elucidação de outras e que a sessão anterior havia sido fundamental para tal.

Uma das conclusões a que chega é que nossa atitude deve ser esta: “Isto pode ser bem ruim – ou também não. Dessa forma teremos a chance de acertar. (…) Podemos formar uma opinião mas sem saber se, em última análise, é válida. (…) O que ao nosso povo parece mau pode ser considerado bom por outro povo”.

Como colocado anteriormente, bem e mal são princípios. A palavra princípio vem de prius, que significa “o que foi antes”, “no início”. Um princípio é sempre mais forte que o indivíduo, é algo de uma ordem superior no sentido que ele nos domina e não nós a ele.

No papel de terapeutas, Jung sublinha que, quanto às questões do bem e do mal, deve-se confiar que está vendo do modo certo, entretanto sabendo que não há uma certeza absoluta. Em suas palavras: “Sendo minha atitude empírica, isto não quer dizer que relativizo em si o bem e o mal. Sei muito bem: isto é mau, mas o paradoxo é que nesta pessoa, nesta situação concreta, neste determinado grau de seu amadurecimento isto pode ser bom. Por outro lado, o bom no momento errado e no lugar impróprio se torna o pior. (…). Muitas coisa se nos apresentam, mas não conseguimos desvendar seu significado. Aparecem cobertas pelo véu da sombra; só mais tarde a luz se projeta sobre o escondido”.

Por esse prisma, o bem e o mal sempre deverão ser entendidos na peculiaridade de cada situação que se apresenta para cada indivíduo. O mal, embora seja difícil de admitir, muitas vezes é necessário para trazer a transformação onde o bem pode se apresentar. Em situações críticas, “sempre falta ao herói sua arma; na morte, somos confrontados com a crueza do fato” – diz Jung. Tudo isso leva a pessoa a apresentar-se a si mesma e a reagir como um todo.

Jung continua suas considerações afirmando que a realidade do bem e do mal consiste em coisas, situações que ultrapassam nosso pensamento diante da vida e da morte. É sempre algo maior que nós mesmos.

A ideia dos opostos complementares mostra-se bem clara neste tema. E o conceito do si-mesmo aparece através da possibilidade de se enxergar a sombra e a luz ao mesmo tempo e, desse modo, colocar-se no meio. É a forma de se aproximar da totalidade psíquica. Resume Jung:” O mundo é formado pelo claro e pelo escuro. Só posso dominar esta polaridade na medida em que me libertar dela pela contemplação de ambos os opostos e, assim, atingir a posição do meio. Somente nesta posição não estarei mais submetido aos opostos”.

Autora: Psicóloga Yone Buonaparte d’Arcanchy Nobrega Nasser
CRP: 05/10463