Publicado em: sex, jan 12th, 2018

O sono do sofá

Trabalho há 25 anos com crianças adolescentes e adultos e invariavelmente incluo as famílias no tratamento e entendo o quanto isto é fundamental para a evolução do tratamento psicológico.  O espaço terapêutico é de grande importância para a criança e para o adolescente, como me disse uma paciente de 12 anos ao ter alta: “A terapia foi importante para não me esquecer de ser eu mesma!”. Mas em sua maioria sem inserir a família, não conseguimos obter grandes avanços.
A diferença foi um curso vivencial familiar sistêmico aonde a percepção de nós mesmos dentro de nosso sistema familiar e de forma intensiva durante uma semana, leva-nos a refletir sobre algumas questões:
1.    O indivíduo está sempre inserido dentro de um contexto familiar, portanto não pode ser compreendido fora deste;
2.    Todo sintoma é compreendido como resultante das interações do contexto familiar;
3.    Aquele que apresenta o sintoma é o bode expiatório dos contextos familiares.
4.    A importância em se intervir em tendo em foco a fase do ciclo que a família vive naquele momento.

Parece radical, mas quando em imersão vivencial no contexto familiar os sintomas tomam forma, e sua análise mostra a dinâmica familiar subjacente aos mesmos. A análise responde a questionamentos frente aos sintomas. O paciente referido, ou seja, o bode expiatório, por questões da própria individualidade possui funções ou missões familiares que precisam ser diagnosticadas.  Em sendo estas diagnosticadas, podem ser percebidas e “remédios” (exercícios) podem ser receitados. Estes visam diluir a responsabilidades pelos conflitos entre os membros do sistema familiar, flexibilizando padrões, ajudando cada um de seus membros a exercer a função que lhe compete dentro do sistema.  Isto ajuda o desenvolvimento pessoal de seus membros e diminui o peso que a missão que cada um tem dentro do grupo familiar seja revisada, tornando-a mais leve.
Entendo que a psicoterapia individual não pode ser dissociada deste contexto, necessitando intervenções vinculadas principalmente em crianças e adolescentes.
Vocês devem estar se perguntando o que o título proposto para o texto tem haver com o tema.
O curso induz a uma profunda reflexão, e mergulho em questões familiares que mobilizam, geram angústias, emoções e dores de cabeça. Ao chegar a casa deito-me no sofá e um sono profundo me revigora.  O sono do sofá que em sua maioria das vezes não tem igual. Que remete ao sono da infância, do sono na casa dos pais que me levantavam para levar para a cama.  O sono de quem é cuidado, sem grandes responsabilidades ainda.  Pelo menos no sono do sofá o tempo parece ter parado, revigora.  Ao se acordar a vida andou. É vida de adulto que chama para as demandas da minha família nuclear, meu marido e meu filho.
A vida continua.
A matriz familiar presente de forma tranquila, agora como uma cicatriz que não causa sangramentos.
Que todos nós psicólogos possamos fazer esta viagem interna.
É só.


Psicóloga Andreia Calçada
Especialista em Psicologia clínica.
CRP-05/18785