Publicado em: seg, ago 20th, 2018

Os benefícios de um período melancólico

Não se preocupe por se sentir triste: os benefícios de um período melancólico

Em um perfil do Twitter chamado So Sad Today (Tão triste hoje, em tradução livre), a escritora americana Melissa Broder publica pílulas diárias sobre sua vida interior desde 2012. Broder escreve sobre tristeza mundana – “acordar hoje foi uma decepção”, ou “o que você chama de colapso nervoso eu chamo de oops, sem querer vi as coisas como elas são” – e ela é brutalmente honesta sobre suas próprias limitações (“opa, me machuquei tentando me adequar a padrões de beleza socialmente aceitos que sei serem falsos, mas nos quais ainda sinto que tenho de me encaixar”, ou “acabei de sentir um lampejo de auto-estima e pensei que porra é essa”).

A conta se tornou uma sensação, fazendo com que ela conquistasse mais de 675 mil seguidores.
O livro de ensaios de Broder sobre suas batalhas de saúde mental, também chamado “So sad today”, apareceu em 2016. É impressionante que as ostensivas declarações de Broder sobre tristeza – além de outras emoções ruins – tenham reverberado em um mundo onde os perfis pessoais nas redes sociais passam por uma imaculada curadoria  para mostrar os  lados mais felizes.
Por outro lado, está claro que as crescentes taxas de depressão em todo o mundo significam que estamos tendo dificuldades em ficar felizes.
O que estamos fazendo de errado?
A popularidade de Broder deveria encorajar um novo olhar em direção à tristeza e sentimentos relacionados.
Talvez devêssemos considerar um realinhamento com os românticos, que encontraram alívio ao expressar suas emoções livremente por meio da poesia.
Em sua “Ode sobre a melancolia” (1820), por exemplo, John Keats escreveu: “Sim, pois esse amoroso Templo do prazer / Tem na Melancolia o seu nublado altar” (tradução livre). Dor e alegria são dois lados da mesma moeda – ambos são necessários para uma vida vivida em sua totalidade. Keats podia estar pensando em Robert Burton, o padre e acadêmico do século 17 cujo pesado volume “A anatomia da melancolia” (1621) descreveu como a tristeza pode exaurir uma pessoa (algo que viríamos a entender como depressão clínica) e como lidar com isso.
Ou vários livros de autoajuda do século 16 que, de acordo com Tiffany Walt Smith, um colega pesquisador do Centro da História das Emoções na Universidade Queen Mary de Londres, “tentam encorajar a tristeza em leitores ao lhes dar listas de razões para se desapontar”. É possível que o caminho que leve à verdadeira felicidade passe pela tristeza?

Pesquisas recentes sugerem que viver sentimentos não tão felizes na verdade promove o bem-estar psicológico.
Um estudo publicado no periódico “Emotion”, em 2016, avaliou 365 alemães entre 14 e 88 anos.
Por três semanas, os participantes receberam por celular seis questionários diários sobre saúde emocional.
Os pesquisadores checavam regularmente seus sentimentos – humores negativos ou positivos –, assim como sua percepção da própria saúde física em um dado momento.
Antes dessas três semanas, os participantes foram entrevistados sobre sua saúde emocional (o quanto se sentiam irritáveis ou ansiosos; como percebiam os humores negativos), sua saúde física e seus hábitos de integração social (eles tinham relacionamentos fortes com pessoas em suas vidas?).
Depois de concluída a tarefa do smartphone, eram feitas perguntas sobre satisfação com a vida.
A equipe descobriu que a ligação entre estados mentais negativos e saúde física e emocional pobres era mais fraca em indivíduos que consideravam os humores negativos como úteis.
Humores negativos se correlacionavam com insatisfação com a vida apenas em pessoas que não percebiam os sentimentos adversos como úteis ou agradáveis. Esses resultados foram ao encontro da experiência de clínicos. “Frequentemente, o problemático não é a resposta inicial de uma pessoa a uma situação (a emoção primária), mas a sua reação àquela resposta (a emoção secundária) que tende a ser a mais difícil”, afirmou Sophie Lazarus, uma psicóloga do centro médico Wexner, da Universidade do Estado de Ohio. “Isso porque é comum mandarmos mensagens de que não deveríamos sentir emoções negativas, então as pessoas ficam muito condicionadas a querer mudar ou a se livrar de suas emoções, o que faz com que as suprimam, ruminem e/ou evitem”.
De acordo com Brock Bastian, autor de “The Other Side of Happiness: Embracing a More Fearless Approach to Living” (O outro lado da felicidade: adotando uma abordagem mais corajosa na vida, em tradução livre) (2018) e psicólogo na Universidade de Melbourne, na Austrália, o problema é parcialmente cultural: uma pessoa vivendo em um país do Ocidente tem de 4 a 10 vezes mais probabilidade de ter depressão clínica ou ansiedade durante a vida do que um indivíduo vivendo em uma cultura oriental.
Na China e no Japão, emoções negativas e positivas são ambas consideradas uma parte essencial da vida.
A tristeza não é um obstáculo para a experiência de emoções positivas e – diferentemente da sociedade ocidental – não há uma pressão constante para ser alegre.  Esse modo de pensar pode ter origem na criação religiosa. Por exemplo, a filosofia indo-tibetana budista, que foi amplamente estudada por psicólogos ocidentais como Paul Ekman, pede pelo reconhecimento de emoções e pela aceitação da dor como parte da condição humana. Ela coloca a ênfase no entendimento da natureza da dor e das razões que levam a ela. Muitas práticas psicológicas modernas, tais como a terapia comportamental dialética, empregam essa abordagem de reconhecer e nomear as emoções no tratamento da depressão e da ansiedade. Em um estudo publicado em 2017, Bastian e seus colegas conduziram dois experimentos examinando como a expectativa social de buscar a felicidade afeta as pessoas, especialmente quando estão diante do fracasso.
No primeiro estudo, 116 estudantes universitários foram divididos em três grupos para que realizassem uma tarefa com um anagrama. Muitos dos anagramas eram impossíveis de resolver. O teste foi projetado para que todo mundo falhasse, mas apenas um dos três grupos sabia disso.
Outro grupo estava em uma “sala feliz”, com paredes com pôsteres motivacionais, post-its com mensagens alegres e literatura de bem-estar, enquanto o último grupo ficou em uma sala neutra. Depois de concluir a tarefa, todos os participantes completaram um teste de preocupação que mediu suas reações ao fracasso na tarefa do anagrama, e preencheram um questionário projetado para avaliar se as expectativas sociais de felicidade afetaram a maneira como eles processaram suas emoções negativas. Eles também realizaram um teste sobre seu estado emocional naquele momento. Bastian e sua equipe descobriram que as pessoas na “sala feliz” se preocupavam muito mais sobre seu fracasso do que as pessoas nas outras duas salas. “Quando as pessoas se encontram em um contexto (nesse caso, uma sala, mas geralmente em um contexto cultural) em que a felicidade tem grande valor, isso estabelece um senso de pressão de que elas deveriam se sentir assim”, Bastian me disse. Então, quando vivenciam um fracasso, “ruminam sobre porque não estão se sentindo da maneira que acham que deveriam se sentir”. Essa ruminação, os pesquisadores descobriram, piorou o estado mental delas. No segundo experimento, 202 pessoas preencheram dois questionários online. O primeiro perguntava com que frequência e intensidade sentiam tristeza, ansiedade, depressão e estresse. O segundo – em que pessoas deveriam classificar frases como: “eu acho que a sociedade aceita pessoas que sentem depressão ou ansiedade” – avaliava o quanto expectativas da sociedade de se buscar sentimentos positivos e inibir negativos afetavam o estado emocional. Os resultados mostraram que as pessoas que achavam que a sociedade espera que eles estejam sempre alegres e nunca tristes sentiram estados emocionais negativos de estresse, ansiedade, depressão e tristeza com mais frequência. Épocas doloridas conferem outros benefícios, que nos fazem mais felizes no longo prazo. É durante a adversidade que nos conectamos mais intimamente com as pessoas, aponta Bastian. Passar por adversidades também constrói resiliência. “Psicologicamente, você não consegue se tornar resistente se não tiver que lidar com coisas difíceis na vida”, disse. Ao mesmo tempo, ele alerta que as recentes descobertas não deveriam ser mal-entendidas. “O ponto não é que deveríamos tentar ser mais tristes na vida”, afirmou. “O ponto é que quando tentamos evitar a tristeza, vê-la como um problema, e lutamos pela felicidade infinita, estamos na verdade não muito felizes e, portanto, não conseguimos desfrutar dos benefícios da felicidade.” Dinsa Sachan é um jornalista de ciência e cultura baseado em Nova Déli. Seu trabalho apareceu nas publicações Discover, The Lancet e Playboy, entre outras.

Fonte:
www.nexojornal.com.br