Publicado em: dom, jun 3rd, 2018

Pesquisa abre caminho para surgimento de novos remédios contra depressão

Nos versos da canção Esperando por mim, o compositor e cantor Renato Russo defende que “o mal do século é a solidão”. A espera por um pouco de afeição tem provocado prejuízos psicológicos cada vez mais estudados por cientistas. Mas há também um impacto fisiológico no cérebro dos isolados, como mostram pesquisadores americanos em artigo divulgado na revista científica Cell.

Em experimentos com ratos, a equipe descobriu que o exílio por longos períodos de tempo pode gerar o acúmulo de uma proteína no cérebro: a taquicinina. Por outro lado, o bloqueio dessa substância é capaz de eliminar os efeitos negativos do isolamento. A descoberta, segundo os cientistas, abre a possibilidade de desenvolvimento de novos medicamentos para problemas como depressão, estresse e ansiedade.

David J. Anderson, pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e um dos autores do estudo, conta que pesquisas com outros animais mostram que o isolamento social crônico tem efeitos debilitantes na saúde mental. Em mamíferos, por exemplo, é frequentemente associado à depressão. Em humanos, ao transtorno de estresse pós-traumático. Ele e a equipe decidiram investigar moscas do gênero drosophila para entender melhor essa relação.

Ao analisar os insetos, observaram que a taquicinina contribuiu para a ocorrência de reações agressivas entre aqueles que foram socialmente isolados. “O fato de haver semelhanças das moscas da fruta com os ratos me fez pensar que esse peptídeo poderia exercer função semelhante em algumas formas de estresse e também causar efeitos semelhantes no cérebro dos seres humanos”, diz David J. Anderson.

Os testes com ratos tinham como objetivo investigar se o efeito da taquicinina detectado nas moscas também seria encontrado em mamíferos. A equipe descobriu que o gene da taquicinina, o Tac2, codifica um neuropeptídeo chamado neuroquinina B (NkB) e que ambos são produzidos por neurônios da amígdala e do hipotálamo, áreas cerebrais envolvidas nos comportamentos emocional e social. Em situação de isolamento crônico, houve aumento da expressão do Tac2 e, consequentemente, do NKB em todo o sistema neural dos animais.

Porém, quando as cobaias receberam uma substância que bloqueia quimicamente os receptores específicos de NkB, elas voltaram a se comportar normalmente, eliminando os efeitos negativos do isolamento social. Inversamente, o aumento artificial dos níveis de Tac2 e a ativação dos neurônios correspondentes em roedores normais fizeram com que eles passassem a se comportar como os animais estressados e isolados.

Outro tempo

As cobaias do experimento ficaram isoladas durante duas semanas. “É difícil estudar esse estresse crônico causado pelo isolamento social dessa forma porque, nos humanos, ele é gerado em um longo período. Nos ratos, esse tempo é menor. É, portanto, um tipo de análise complicada de ser feita. Ainda assim, esse estudo traz dados importantes principalmente para o público leigo, que tende a separar a vivência psicológica da biológica. Nós não temos como separar a mente dos neurônios, as duas coisas estão internamente ligadas”, ressalta Murilo Lobato, psiquiatra do Instituto Castro e Santos (ICS), em Brasília.
Segundo o especialista, resultados semelhantes de estudos feitos com humanos sinalizam que as relações apontadas pela equipe americana podem ser possíveis. “Quando vemos o cérebro de uma pessoa que sofreu estresse na infância, há alterações de volume, com modificações na natureza celular, o que reforça essa relação”, explica.

Embora o trabalho tenha sido feito com camundongos, a equipe ressalta que ele tem implicações potenciais para entender como o estresse crônico afeta os humanos. “Temos um sistema de sinalização Tac2 análogo, o que implica possíveis traduções clínicas desse trabalho”, defende Moriel Zelikowsky, um dos autores do estudo e pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

Segundo o pesquisador, a descoberta permite, inclusive, pensar novos meios de enfrentamento de problemas psíquicos. “Quando olhamos para o tratamento de transtornos mentais, tradicionalmente focamos em sistemas de amplo espectro de neurotransmissores, como serotonina e dopamina, que circulam amplamente por todo o cérebro. Manipular esses grandes sistemas pode levar a efeitos colaterais indesejados. Um neuropeptídeo como o Tac2 é uma abordagem mais promissora”, defende.

Outros exílios

Sylvania Emerick, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, avalia que o estudo americano se destaca por abordar um comportamento recorrente em diversos problemas psicológicos. “Na clínica, isso é visto diariamente. O isolamento está presente em vários distúrbios, comportamentos depressivos e ansiosos”, diz. Para a especialista, a pesquisa levanta outras questões relacionadas à ausência crônica de contato social. “Hoje, a maioria das conversas que temos é realizada por meio das redes sociais. Podemos falar que esse é um tipo de isolamento? O contato virtual vale como interação social ou é apenas a que temos contato físico?”, provoca.

A especialista acredita que essas questões também devem ser mais investigadas. “Precisamos avaliar como pesa cada tipo de interação, para ver se elas têm efeitos distintos, e comparar com o isolamento total, que é o que ocorre na depressão, por exemplo. Outro ponto importante é saber a quantidade de tempo em que a pessoa fica sem contato com outros, o que também pode fazer diferença na avaliação”, detalha.

Do medo ao luto

Os pesquisadores também inibiram a função do gene Tac2 e seus receptores em múltiplas regiões cerebrais. No caso da amígdala, o procedimento eliminou o aumento dos comportamentos de medo, mas não os agressivos. Já a supressão do gene no hipotálamo eliminou o aumento da agressão, mas não o medo persistente. Os resultados mostram que o Tac2 precisa ter a quantidade aumentada em diferentes regiões do cérebro para produzir os efeitos variados do isolamento social. “O rico conjunto de dados gerados revelou como esse neuropeptídeo atua globalmente para coordenar diversas respostas comportamentais ao estresse de isolamento”, comemora David J. Anderson, pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

A substância utilizada para inibir os efeitos do isolamento em ratos foi desenvolvida como uma terapia potencial para esquizofrenia e transtorno bipolar. Embora tenha se mostrado segura e bem tolerada em estudos com humanos, não demonstrou qualquer eficácia para esses distúrbios. “Nosso estudo levanta a possibilidade de que essa droga possa ser reaproveitada para tratar outros tipos de transtornos psiquiátricos que estão relacionados aos efeitos do isolamento social. Não apenas no confinamento solitário, mas, talvez, no estresse do luto ou outros tipos de estresse”, ressalta o cientista.

Confinamento

Moriel Zelikowsky, também autor do estudo e pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia, sinaliza outra aplicação. “Para mim, levanta-se a questão de saber se essa droga poderia atenuar os conhecidos efeitos deletérios do confinamento solitário, como o aumento do comportamento violento em indivíduos encarcerados.”

Murilo Lobato, psiquiatra do Instituto Castro e Santos, acredita que as descobertas poderão ajudar também na criação de medicamentos para problemas sem  alternativas farmacológicas eficientes. Ele cita como exemplo o transtorno de estresse pós-traumático. “Geralmente, é receitado um calmante, como o Rivotril, mas ele resolve o problema apenas inicialmente. Abaixa a ansiedade, mas, no futuro, sedimenta, causa a perpetuação da vivência traumática. Dessa forma, a parte afetiva do trauma acaba sendo favorecida a longo prazo”, explica. “Essa pesquisa pode trazer um grande ganho porque a droga agiria de forma mais específica, na raiz do problema, algo que hoje não temos no mercado.”

Sem reação

Em experimentos com ratos, os investigadores também notaram que o isolamento fez com que as cobaias ficassem “congeladas” diante de um estímulo ameaçador, inclusive depois que o perigo passou. A falta de reação foi observada em animais isolados ao longo de duas semanas, não nos submetidos ao regime por 24 horas. Para os autores, a diferença sugere que esse tipo de apatia pode ser uma consequência do isolamento crônico.

Fonte:
www.correiobraziliense.com.br