Publicado em: ter, maio 23rd, 2017

Sobre a clínica Junguiana

Defendo o respeito a todas as abordagens psicológicas. Todas que atuam hoje, reconhecidas pelo CFP, possuem sua eficácia ou a história já as teria banido muito antes disso. Sobre a clínica Junguiana, segundo Hall ¹, um paciente chega à clínica, aflito buscando solução para algo específico ou, quando não identifica, deseja eliminar “este algo” que o incomoda psíquica ou fisicamente. Nos dias de hoje, o paciente chega ansioso por respostas na mesma velocidade em que apareceriam após pesquisa na internet. Também é comum relatar sintomas “já eleitos”, onde descreve com detalhes aquilo que pesquisou, se identificou e decorou da internet.     

Uma segunda expectativa do paciente é que haverá uma exploração da sua vida pregressa, em particular das memórias da infância. Neste ponto ele, sem se dar conta, encontra-se influenciado por um estereotipo da psicanálise freudiana onde a origem de tudo estaria localizada nas experiências ou fantasias da infância. Esta ação Jung chamou de “análise redutiva” o que em sua etiologia reduziria as questões presentes do paciente a um elemento do passado.  Jung aceitava essa perspectiva, pois situações traumáticas reais ou fantasiosas (do passado ou do presente) geram os complexos. Mas, para além, cita que: “(…) a psicologia, segundo sua essência, não pode ser esgotada apenas através de explicações causais, uma vez que a psique tem também determinação finalista.”².

Nesta perspectiva finalista (em busca de um sentido), a Psicologia Analítica utiliza-se do método prospectivo onde, segundo Jacobi (2013), trabalha “da situação atual, rumo ao futuro, na medida em que procura estabelecer relações entre consciência e inconsciência, ou seja, entre todos os pares psíquicos contrapostos, para prover a personalidade de uma base sobre a qual possa edificar um equilíbrio psíquico duradouro.”³. 

            No processo dialético entre analista e analisando procura-se fazer com que esta relação Consciente (Cs) ó Inconsciente (ICs) aconteça visando uma abertura para que o ICs seja “escutado” e, assim, que a energia psíquica restabeleça seu fluxo quando, por vezes, encontra-se bloqueada por neuroses ou complexos ativos.  As maneiras do ICs se expressar, além dos chistes, atos falhos ou lapsos de memória (viés Psicanalítico), ocorrem através dos símbolos que são de suma importância na clínica Junguiana. Prova desta comunicação encontra-se nos sonhos e seus símbolos oníricos.  

O símbolo possui energia e quando bem trabalhado no processo analítico continuado com profissional habilitado, potencializa a consciência com essa energia. James Hillman, pós-Junguiano, dizia: “Fique com o símbolo”, ou seja, trabalhe sua energia sem transformá-lo de antemão em um sinal catalogado. A clínica Junguiana possui técnicas expressivas próprias para o trabalho com símbolos. Tais como: caixa de areia, imaginação ativa, arte terapia, dentre outras.

            Devemos também destacar na clínica a importância do vínculo estabelecido entre analista e analisando, também chamado de Transferência (analisando em relação ao analista) e Contratransferência (analista em relação ao analisando). Jung menciona: “O encontro de duas personalidades é como a mistura de duas substâncias químicas diferentes: no caso de se dar uma reação, ambas se transformam. Como se espera de todo tratamento psíquico efetivo, o médico exerce uma influência sobre o paciente. Influir é sinônimo de ser afetado.4

Uma analogia a este processo seria a de um Vaso Alquímico (setting terapêutico) onde duas substâncias distintas interagiriam gerando uma terceira única. Esta mistura equivaleria aos ICs do analista e analisando na sessão clínica, pois as interações das Cs encontram-se protegidas pela racionalização.

            Resulta assim a necessidade do analista estar em análise pessoal para manter seu psiquismo em condições propícias para atuação clínica. Questões pessoais do analista também devem ser trabalhadas, pois só conseguimos levar o paciente até onde nós próprios conseguimos ir. Temos que: “Aquilo que não está claro para nós, porque não o queremos reconhecer em nós mesmos, nos leva a impedir que se torne consciente no paciente, naturalmente em detrimento do mesmo.5.

Notas Bibliográficas
1 HALL, 1995, p.75
2 JUNG apud JACOBI, 2013, p.106
3 JACOBI, 2013, p.111
4 JUNG, 2008, p. 68, §163
5 JUNG, 2008, p. 6, §8

Referência Bibliográfica
HALL, James A. A Experiência Junguiana: Análise e Individuação. São Paulo: Cultrix Editora, 1995.
JACOBI, Jolande. A Psicologia de C. G. Jung: Uma Introdução às Obras Completas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

JUNG, Carl Gustav.   A prática da psicoterapia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

Artigo escrito por:
Lincoln Torres Homem Junior – CRP 05/40670
Mestre em Psicologia e Analista Junguiano.

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