Publicado em: sex, mar 23rd, 2018

Sobre o abuso sexual e o (treinamento ops!) tratamento de suas sequelas

Compreende-se o abuso sexual como toda ação praticada por um adulto (ou pessoa em estágio de desenvolvimento psicossocial mais adiantado em relação à criança e ao adolescente), que numa relação de poder, obriga uma criança a práticas sexuais por meio da força física, de influência psicológica (intimidação, aliciamento, indução da vontade, sedução) ou do uso de armas e drogas.

A World Health Organization – WHO, (1999) acrescenta eu o abuso sexual infantil é o envolvimento de uma criança em atividade sexual que ele ou ela não compreende completamente, é incapaz de consentir, ou para a qual, em função de seu desenvolvimento, a criança não está preparada e não pode consentir, ou que viole as leis ou tabus da sociedade. O abuso sexual infantil é evidenciado por estas atividades entre uma criança e um adulto ou outra criança, que, em razão da idade ou do desenvolvimento, está em uma relação de responsabilidade, confiança ou poder.

Portanto, quando buscamos a conceituação de abuso sexual sempre encontramos associadas as palavras poder, desenvolvimento psicossocial diferentes e exposição sexual inadequada à idade. A criança é utilizada em uma relação objetal conforme (Prado, 2005): A perversão caracteriza-se por relações parciais de objeto, em que a expressão da sexualidade se dá com crueldade e destrutividade, que são muito idealizadas. O outro é visto como coisa, como utensílio, de modo desumanizado e sem consideração. (Prado, 2005)

Qualquer pesquisa sobre o tema nos dá acesso às graves sequelas que um abuso sexual pode gerar no psiquismo de uma criança, seu desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional e social. A visão que passa a desenvolver sobre o mundo, as pessoas e seu próprio corpo normalmente tornam-se distorcidas gerando prejuízos.  Transtornos psiquiátricos estão em muito associados como consequência deste tipo de violência.  Desde o TEPT (transtorno de estresse pós-traumático), depressão, ansiedade, suicídio, transtornos de conduta e sexuais entre outros.

Abaixo um depoimento retirado do site Childhood Brasil nos dá a dimensão do sofrimento de quem vivencia o abuso sexual

 “O dano maior que fica depois de um a abuso é a relação de desconfiança com o mundo e não saber o que é real. Foi muito complicada a descoberta da sexualidade para mim, com a falta de confiança nos relacionamentos, porque as imagens voltavam a toda a hora, ficam no inconsciente”, conta Samara Christina (nome fictício), 34 anos, vítima de abuso sexual na infância. Childhood brasil

Buscando o tema tratamento de vítimas de abuso sexual infantil, encontramos um número menor de artigos científicos, do que à avaliação e investigação, dada a complexidade do tema. Souza; Assis; Alzuguir (2002) abordam profundamente o tema relacionando formas de tratamento bem como a capacitação dos profissionais.  Descrevem formas de abordagem ao assunto traumático desde a avaliação e anamnese até a orientação a pais e familiares. Informa bons resultados com psicanálise, mas também com terapia cognitivo comportamental, bem como a necessidade do suporte intenso principalmente no início, no pós-revelação/descoberta. Apontam a necessidade de atuação interdisciplinar, conhecimento e estudo sobre o tema. A atuação conjunta com o psiquiatra infantil é fundamental.

Fundamental se faz também o conhecimento do funcionamento da personalidade, de psicopatologia, de interação terapêutica, enfim de tudo que um psicólogo tem em sua formação como psicoterapeuta e principalmente especializado em violência contra a criança.

E aí caro leitor, quero aqui levantar a crítica a profissionais fora da nossa área em um viés puramente mercadológico, que fazem cursinhos de final de semana e se dizem aptos a tratar o abuso sexual entre outras problemáticas sérias. A seriedade de uma abordagem terapêutica se impõe através de muito estudo, prática e desenvolvimento pessoal. No abuso sexual infantil a gravidade das sequelas se impõe. Não é brincadeira e não pode ser entendido como um mercado a ser explorado financeiramente. Coaching não é psicoterapia. O coach como o próprio nome diz é um treinador. Que os coachs de plantão vão se estabelecer em outro lugar longe das questões emocionais de quem precisa de ajuda, a não ser que o coach tenha em sua base a psicologia como formação. Aonde está o nosso Conselho para nos proteger enquanto classe e proteger as vítimas de abuso sexual e nossos pacientes vítimas desta ação mercadológica tão grave?

Referências Bibliográficas

  • Souza; Assis; Alzuguir. . Estratégias de atendimento aos casos de abuso sexual infantil: um estudo bibliográfico. Bras. Saude Mater. Infant. vol.2 no.2 Recife May/Aug. 2002
  • Carneiro; Prado. Abuso sexual e traumatismo psíquico. Interações vol X. no 20. Pg 11-24. Jul.Dez 2005

 
Psicóloga Andreia Calçada.
CRP-05/18785