Publicado em: seg, ago 27th, 2018

Você se ama de verdade?

O amor-próprio, como todos os amores, precisa ser cultivado. E às vezes isso custa. Sobretudo se tivermos que superar obstáculos.

Vivemos na era da selfie e da exibição constante. O narcisismo, a egolatria, as relações voláteis, o histrionismo e o apego tóxico são os grandes temas da psicologia e da filosofia desta época. Esses comportamentos são sintomas de uma das grandes carências das pessoas no nosso tempo: a falta de autoestima. Gostar de si mesmo é a base de nosso bem-estar mental e a única via para termos uma boa relação com outros.

Já se escreveu muito sobre este assunto, mas, realmente, o que significa gostar de si mesmo? Para um dos maiores especialistas nesse assunto, o professor de psicologia Chris Mruk, a autoestima é a “avaliação que geralmente um indivíduo faz e mantém com relação a si mesmo, expressando uma atitude de aprovação ou desaprovação”. Um elemento indispensável para gozar de boa saúde mental, uma vida plena e relações saudáveis com outros. Não por acaso, o filósofo Fernando Savater, autor do livro Ética como amor-próprio (ed. Martins Fontes), argumenta que a ética é “uma forma ilustrada de amar a si mesmo; a pessoa moral é um egoísta bem informado, que sabe o que lhe convém e que o busca”. Mas, na prática, como se faz isso de gostar de si mesmo?

Pense, primeiro, no que significa gostar de alguém… Bom, existem muitos afetos perversos com nossos semelhantes, então, para acertar em cheio, façamos uma experiência melhor: esqueça as grandes palavras escritas sobre o amor a si mesmo e pense no seu animal de estimação ou em alguém que ame o seu animal.
Que sinais demonstram que essa pessoa, ou você mesmo se for o caso, ama o seu bichinho? Claro que esse indivíduo mantém o animal bem alimentado e asseado; escova seu pêlo e lhe compra uma bonita coleira para passear com orgulhoso pela rua. Certamente não permite que outro animal da rua o incomode. Frequentemente brinca com ele, diz para ele coisas bonitas e o acaricia; o acha bonito, tenha a idade, a cor ou a pelagem que tiver.
Ele o mantém a salvo de pessoas que possam lhe fazer mal; procura que se relacione com outros animais e que não passe muito tempo sozinho em casa. Valoriza seu esforço,  e o aplaude quando consegue algo. Também o repreende com severidade e carinho quando não se comporta bem. Conhece suas limitações e suas qualidades. Talvez seu animal não seja o cachorrinho ideal que você esperava, mas você o respeita como é. Gosta de sua companhia; definitivamente, o ama.
Agora pense em quais destes singelos gestos você se permite consigo mesmo:
Aceita-se como é, com suas limitações e defeitos?
Valoriza suas qualidades e reconhece seus esforços?
Aplaude seus feitos?
É indulgente consigo mesmo?
Sai com frequência para desfrutar da natureza?
Alimenta-se bem?
Pergunta-se do que gosta?
Permite-se sentir e expressar tristeza ou desgosto, mesmo que isso incomode os outros? É capaz de proteger seus sentimentos e necessidades impondo limites aos outros? Mantém seu corpo ativo?
Escuta-se a si mesmo, sabe quais são seus desejos?
Gosta da sua própria companhia?
Cultiva as amizades?
Protege-se das pessoas que lhe fazem mal?
Diz coisas bonitas a si mesmo?
Acaricia-se?
Acha-se bonito, atraente, interessante ou agradável?

O amor a si mesmo, como todos os amores, precisa ser cultivado. E às vezes isso custa. Não é uma flechada à primeira vista, nem sai sozinho, sobretudo se tivermos que superar alguns obstáculos. Ao longo de nossa vida, nos vemos refletidos no olhar dos outros. E pode ser que esse espelho nos tenha devolvido uma imagem feia, enviesada, crítica. Assim nos vimos porque assim nos refletiram. Etiquetaram-nos e não conhecemos nossa cara se não for por esse espelho ao qual nos moldamos. Quando uma criança não recebe amor, acredita que não o merece. Não imagina que seus pais ou cuidadores — esses que em tese são bons por definição— não saibam amá-la. Talvez tenham lhe exigido muito, ou lhe deram uma educação castradora, na qual sua maneira de ser não se encaixava.

Pode ser que, pelo contrário, tivesse pais que mimavam e adulavam a criança, que só aceitavam uma imagem idealizada e perfeita de seu filho, com o temor de o pequeno lhe causar frustração caso se mostrasse tal como é: imperfeito, como somos todos na verdade. Nessa idade, você pensa que, se não o amam, é porque você não merece ser amado –nem por você mesmo. Os adultos já não podem reparar essas falhas que minam nossa autoestima, porque não há maneira de voltar ao passado nem mudar os sentimentos dos outros. Mas está nas nossas mãos, isso sim, saber modular esses sentimentos.
Como dizia o poeta egípcio Constantino Cavafis: “Não há navio que o leve de você mesmo”.
Na vida, podemos mudar de cônjuge, de amigos, de colegas, de país…, mas não há maneira de escapar de nós. Somos livres para nos maltratar e também para nos amar. Só se nos aceitarmos e nos amarmos como somos, além de livres, poderemos ser nós mesmos.

Fonte:
https://brasil.elpais.com